Resenha - Vidas Roubadas

22 março 2021



Neste livro nos deparamos com duas irmãs, Sabrina e Stella. Enquanto Sabrina sente uma imensa falta de seu falecido pai e não aceita a chegada de Adalberto, namorado de sua mãe, Stella acredita que ele possa ocupar o lugar que está vago.

Sabrina faz questão de demonstrar sua contrariedade à sua mãe e ao próprio Adalberto e tudo vai de mal a pior em um dia que, sozinha em casa, Adalberto aproveita a situação e abusa sexualmente dela. Os abusos passam a ser constantes e sob ameaça de que se contar algo a mãe ou a qualquer pessoa Adalberto irá fazer o mesmo com Stella, então Sabrina se cala e suporta longos e agonizantes cinco anos de estupros, humilhações e ameaças constantes, pois ele garante a ela que a culpa é da própria Sabrina, que sempre se insinuou e se exibiu para ele ao usar roupas curtas na intenção de provocá-lo.


"Lembro de me sentir suja, de me sentir culpada."



Sabrina culpa a mãe em silêncio e não consegue acreditar que ela nunca percebeu ou notou os sumiços de Adalberto quando ele invadia seu quarto e seu corpo a força e isso faz com que ela desenvolva um enorme rancor e uma tremenda mágoa pela pessoa que deveria proteger a ela e sua irmã Stella de todo e qualquer mal. 

Tudo piora quando Sabrina descobre que a maldade e podridão de Adalberto alcançou sua irmã e que ele fez a mesma coisa com Stella e o pior: que a menina a culpa pelo acontecido.

Sinceramente eu não sei como Sabrina conseguiu suportar tudo o que lhe aconteceu por longos e terríveis cinco anos sem fazer nenhuma besteira. Eu no lugar dela teria enlouquecido. E como se não bastasse todo o sofrimento, vergonha e culpa com que tem que lidar diariamente, Sabrina ainda apanha da mãe quando ela descobre e é expulsa de casa por ela, indo morar na rua, sem um teto sobre sua cabeça, sem comida, mas principalmente, sem apoio, carinho, amor e zelo da pessoa que deveria cuidar e proteger a ela e a irmã.



[ Minhas Impressões ]


Assim que dei início a leitura logo percebi que seria extremamente difícil e doloroso do começo ao fim, pois o assunto abordado não é nem um pouco fácil. Ele causa revolta, asco, desespero, ódio e um sentimento de impotência, mas também causa empatia e solidariedade.

Imagino que não tenha sido nada fácil e muito menos confortável para a autora tratar desse assunto em seu primeiro livro, todavia, entendo que ela sabia muito bem o que estava fazendo e o que pretendia ao falar de um assunto abominável, mas que infelizmente acontece com assustadora frequência.



Acredito que deva ter sido um trabalho de pesquisa seríssimo e que em vários momentos deva ter lhe causado dor, desconforto e lhe feito sofrer, porque não tem como ler algo assim e não se compadecer por Sabrina e Stella e penso que escrever tenha sido ainda pior.

Contudo, a autora criou uma narrativa que prendeu minha atenção pelo impacto da história e pela força de Sabrina. Confesso que me faltam palavras para dizer o quanto eu fiquei na torcida por ela, torcendo para que a sua vida fosse boa.

Além da força como pessoa, Joseli ensina sobre amor. O amor que Sabrina sempre sentiu pela irmã foi o que a fez aguentar os longos e torturantes cinco anos de estupros, ameaças e humilhações calada. Então quando a situação se repetem com Stella eu senti que todo o esforço, toda a luta foi em vão. Pelo menos foi essa a impressão que tive e quando tudo se confirmou e foi angustiante demais ver tudo se repetindo. 

E ao me sentir impotente e angustiada caí em mim ao me dar conta de que o que eu lia era ficção, mas que, na vida real, a história se repete e é revoltante demais saber que crianças e adolescentes são tratadas dessa maneira diariamente e nada ou quase nada é feito de forma a se combater efetivamente essa violência.




Vidas Roubadas
é um alerta, um grito de socorro e um tapa na cara da sociedade que, na maioria das vezes, trata a vítima como culpada e não lhe dá a devida atenção e são insensíveis a sua dor. 


O livro é forte e chocante e me doeu muito ler a violência praticada contra as duas irmãs, mas o que me encolerizou foi a reação da mãe de Sabrina ao saber o que acontecia com a filha. Em nenhum momento ela procurou ouvir a garota e muito menos duvidou do padrasto estuprador. A reação dela foi algo desumano, mas que, infelizmente, a gente sabe que acontece constantemente, uma mãe que prefere acreditar no homem e colocar a filha na rua.


Essa mulher não deve ser chamada de mãe, pois a responsabilidade de tudo de ruim que acontece com as meninas é totalmente dela. Uma mãe omissa, desalmada, cruel e sem coração. O final do livro não foi algo que me surpreendeu bastante e nem o qual eu ansiei que acontecesse - que fosse o melhor possível para Sabrina e Stella, porém dessa vez a ficção foi dura e muito realista.


Eu não conhecia a autora, mas a parabenizo por abordar em seu livro um assunto que precisa e deve ser amplamente discutido e enfrentado de frente pela sociedade, para que as políticas públicas e governamentais olhem com mais carinho e humanidade pelas vítimas de crime de estupro e as acolham sem julgamento.






Livro: Vidas Roubadas
Cortesia: Joseli Medeiros (Autora Parceira)
Número de Páginas: 48 páginas.
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Duas irmãs tem que lidar com o marido da mãe que é um abusador, elas não tem o apoio de ninguém, nem mesmo da própria mãe. Elas só podem contar com elas mesmas. Sabrina faz o pior para tentar proteger a irmã e garantir a liberdade de ambas, Stella tem uma decisão confusa e difícil para tomar. Qual seria a sua decisão estando no lugar das meninas?






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