21 julho 2017

Resenha - Apenas Uma Garota



Título: Apenas Uma Garota
Autora:  Maredith Russo
Editora: Intrínseca
Páginas: 240
Skoob
Onde Comprar: Submarino / Amazon

Prestes a entrar na vida adulta, Amanda Hardy acabou de mudar de cidade, mas a verdadeira mudança de sua vida vai ser encarar algo muito mais importante: a afirmação de sua identidade. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. E, embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que ela conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros. Ela não consegue evitar: aos poucos, vai permitindo que Grant entre em sua vida. Quanto mais eles convivem, mais ela se sente impelida a se abrir e revelar seu passado, mas ao mesmo tempo tem muito medo do que pode acontecer se ele souber toda a verdade. Porque o segredo que Amanda esconde é que ela era um menino.
Em seu romance de estreia, Meredith Russo retrata o processo de transição de uma adolescente transexual, parcialmente inspirada em suas próprias experiências. Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação.

 







De forma singular e bela, Meredith Russo nos apresenta uma obra incrível, que nos mostra a importância do respeito as diferenças e como ser você mesmo pode ser difícil quando isso "parece" errado.

Amanda Hardy está se mudando para casa do seu pai, devido aos recentes problemas em sua antiga cidade. O pai dela nunca foi presente, desde que se divorciou de sua mãe há seis anos jamais mandou uma mensagem sequer pra a filha.

Ela busca um recomeço, uma nova chance de ser ela mesma sem sofrer por isso.
Ao 18 anos, tudo que quer é ser uma garota normal , terminar o ensino médio e ir para a faculdade o mais longe possível daquele lugar, porém resquícios do seu passado ainda insistem em perturbar sua paz e a cada dia ela precisa reafirmar sua identidade, e com muita força superar tudo que já sofreu.

A adaptação à nova cidade está sendo melhor do que ela esperava, já tem amigas que estão ajudando-a na escola, saindo com ela, até mesmo dividindo segredos. Apesar de tudo está caminhando aparentemente bem, porém, alguém surge para atrapalhar os planos de Amanda: Grant, um garoto por quem ela se apaixonou no primeiro dia de aula. Ele é muito especial e a trata muito bem, algo que ela não conhecia.

Eles logo começam a se aproximar e ela percebe que isso é um risco muito grande para alguém que carrega um segredo tão intenso quanto o dela, e por mais que se afastar seja o ato mais sensato, a descoberta de um sentimento tão forte e nunca antes sentido a faz desejar Grant cada vez mais, e a relação deles começa a se tornar mais sólida com o passar do tempo.


"A arte é uma forma de compartilhar seu mundo com os outros para que eles vivenciem uma conexão com você, mesmo que momentânea."

Diante da enorme proximidade entre ela e Grant, Amanda percebe que o momento de se abrir para ele se aproxima e descobre que ele também tem os seus segredos, assim como todos daquele lugar. Então quando a necessidade de colocar pra fora o que ela já foi um dia se torna insuportável, Amanda escolhe se abrir com Bee, uma garota bissexual que certamente seria mais compressiva do que as outras pessoas daquela cidade. Ela se sente mais leve quando fala pra amiga que é transsexual, e Bee apesar de não compreender muito bem, jura guardar segredo e não fazer perguntas ofensivas.

Embora esteja mais livre por ter falado sobre seu passado para alguém, pensar na reação de Grant ao saber disso ainda a deixa muito aflita, e mesmo que ela saiba que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde, opta por aproveitar cada momento enquanto ele não sabe de nada.

Se o segredo de Amanda não for muito bem guardado tudo que ela está (re)construindo poderá ruir, e a chance de recomeçar, de uma nova vida se tornará mais uma lembrança ruim em sua extensa coleção de dor.


"Eu queria desesperadamente terminar a frase com a verdade, mas o que havia para dizer? Acho que gosto de você, mas nunca vou ter uma vida normal. Acho que você gosta de mim, mas nunca vai entender quem eu sou."


 [ - Minhas Impressões -]

Como vocês puderam ver, eu fiz um resumo menos desenvolvido desse livro por que a história dele é relativamente simples , então não dá pra falar muito senão contamos todo o enredo.

Eu gostei muito dessa obra, e apesar de não ser "tão real", até por que não era essa a intenção da autora, é um livro que retrata a realidade de muitos. Foi bem difícil escrever essa resenha, pois sei que o tema abordado pela autora é bem delicado e quase não discutido, então demorei muito pra decidir se escreveria ou não essa resenha , e optei por partilhar com vocês mais essa experiência de leitura.

Amanda é uma jovem adolescente com todos os medos, dúvidas de qualquer pessoa na idade dela e que só queria ter uma vida normal, mas a intolerância não permite que isso aconteça. O que é muito comum em nossa sociedade: pessoas que não conseguem respeitar o direito de ser do outro. Ninguém é obrigado a abraçar, concordar ou aplaudir a forma de viver de alguém, mas somos livres pra sermos nós mesmos e o que quisermos ser, pois a opinião de ninguém pode interferir nisso.

Seria maravilhoso se as pessoas começassem a pensar que aquilo que eu julgo como padrão de certo e errado, pode não ser o padrão para os demais e que isso não impede que exista uma boa convivência entre eles, desde que haja o respeito e que o direito de um não interfira no direito do outro.

"De um jeito ou de outro, percebi, eu não estava mais triste por existir. Eu merecia viver. Merecia encontrar o amor. Naquele momento eu sabia — e acreditava — que merecia ser amada."

A narrativa nos mostra um paralelo familiar bastante comum: de um lado uma mãe que apoia e quer ver a filha feliz, apesar de não entender muito bem o que está acontecendo e do outro um pai completamente ausente e que não fala com a filha durante muito tempo.

No processo de auto-aceitação e principalmente no início das mudanças, o apoio da família é crucial para nos sentirmos acolhido e nos motivar a seguir em frente. Nesse caminho de descobrir quem somos e encontrarmos nossa real identidade, mesmo sem sermos trans , saber que tem alguém conosco que nos ama incondicionalmente e não vai nos deixar por que pessoas dizem que não estamos certos, é sem dúvida o maior combustível que nos impulsiona a prosseguir.

"Qualquer coisa, qualquer pessoa, é melhor que um filho morto."

A vida às vezes nos dá uma segunda chance, e é muito importante prestarmos atenção para não perder essa nova oportunidade.

O pai de Amanda recebe uma segunda chance de apoiar a filha e de finalmente demonstrar todo o amor que ele diz sentir por ela (se ele consegue ou não só lendo para descobrir), mas devo dizer que em alguns momentos as atitudes dele me impressionaram tanto positivamente como negativamente, mas o fato é que ele tenta consertar a relação que fora quebrada entre eles. Tentar, às vezes, pode ser mais importante que conseguir, pois mesmo que você não alcance seu objetivo, mostra que você lutou até onde conseguiu.

Amigos são maravilhosos, não são? E as amigas que Amanda ganha logo nos primeiros capítulos são incríveis! É muito bom quando chegamos em um ambiente novo, e cidade então, e as pessoas daquele lugar nos acolhem com carinho mesmo sem nos conhecer direito. Ser gentil e acolhedor não é difícil, e certamente o mundo seria melhor se existissem mais pessoas assim.

Se tem personagens que me surpreenderam, foram essas 3 garotas. Após o acontecimento final (que apesar de clichê, foi necessário para a história e tinha que acontecer de um jeito ou de outro) o modo como elas reagem é muito lindo! E até uma delas que é imensamente religiosa , mostra toda compaixão e amor que se deve ter com o próximo. E esse foi um exemplo fantástico de como devemos reagir diante de coisas que não concordamos: com empatia e respeito, sempre.

"Senti meus olhos arderem de repente, e, quando esfreguei a bochecha, minha mão ficou molhada. Tentei me lembrar da última vez em que tinha conseguido chorar."

Os personagens secundários são bem distribuídos nos ambientes e na história , além de agregar muito ao enredo e de nos mostrarem que nem sempre aquela pessoa que se mostra tão próxima e amigável, é digna da nossa confiança. Isso é muito pesado.

Sermos traídos, julgados por pessoas "de fora" da nossas vidas é mais fácil de vencer, de suportar a traição, mas quando a traição vem de alguém no qual depositamos nossa confiança, que nos acolheu e se mostrou tão compreensivo conosco , sem dúvida a dor é mais intensa e uma ferida quase incurável se abre, e somente o tempo pode curar essas feridas tão profundas.

O livro também nos mostra alguns momentos da vida de Amanda antes da adequação, quando ela anda estava se descobrindo e até mesmo quando ela era criança. Isso acrescenta muito ao enredo, e ainda nos proporciona reflexões bem doloridas, e por vezes me emocionei ao ler esses "fragmentos" do passado dela.

O final é encantador!

A autora optou por deixar o fim da trama em aberto, mas com aquela ponta de possibilidade, o que eu gostei muito , pois quando paramos para ouvir alguém as possibilidades surgem e novos horizontes se abrem e é quando entendemos que o nosso passado não nos impede termos um futuro.

Ouvir pode ser mais importante do que falar. E se tratando de algo tão delicado quanto a transexualidade, ouvir se torna imprescindível para se compreender melhor tal questão.

A parte gráfica está bonita, apesar de não trazer nada de extraordinário. É simples , e passa o recado (o que eu amo). O simples às vezes é  melhor opção. O fundo em um tom mais escuro de azul, nos remete a uma áurea escura de medo sobre a menina (pelo menos é o que eu sinto ao ver a capa) que representa a protagonista da obra.


Com uma escrita leve, Meredith Russo nos apresenta uma obra extremamente necessária e que precisa ser lidas por todos, principalmente por aqueles que nos compreendem muito bem essa questão. No fim do livro, autora deixou alguma notas bem interessantes , que servem pra deixar a obra ainda mais completa.

"Apenas Uma Garota" não é um livro explicativo sobre o universo trans , mas é uma obra fantástica que nos mostra o quando o respeito e a tolerância são importantes para uma sociedade mais justa e igualitária.


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13 comentários:

  1. Esse tema está bastante em foco atualmente, tem até na novela!
    Confesso que me senti bem interessada pra ler essa obra e curiosa pra saber como a Amanda vai passar por tudo e superar "certas coisas".
    Essa transição depende de muita força, confiança e de muita ajuda também!
    Parece ser uma história muito bem construída e espero conferir em breve.
    Beijos
    Caroline Garcia

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  2. Achei interessante o tema que o livro aborda porque é uma questão complicada e bem atual. Já existe faz tempos, mas hoje em dia essas coisas estão tendo um esclarecimento maior, a gente vê mais casos assim.
    Gostei porque parece que mostra como as pessoas tratam isso, faz um retrato de toda intolerância e preconceito que ainda existe hoje em dia e serve como alerta. Seria maravilhoso se as pessoas só pudessem ser o que querem ser sem essa interferência dos outros mesmo. Que não existisse um padrão, que parassem de ver casos assim como certo ou errado. Acho que as pessoas são o que são e o que nos cabe mesmo é conhecê-las por dentro, se são boas pessoas, se tem uma boa personalidade. A capa nunca fez um livro bom, não é mesmo?
    Esse negócio da mãe dela querer que ela seja feliz e do pai ausente é algo muito comum mesmo quando a gente vê umas coisas assim. Parece real ter isso na história. Torna mais fácil de pensar em uma situação assim acontecendo. Que mostre como o suporte da família e amigos é importante é outro lado positivo, assim como esses fragmentos do passado dela e de como foi a luta pra se descobrir e aceitar. Deve ser intenso poder ver isso da personagem.
    Acho que seria um livro que iria gostar.

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  3. Ainda não conhecia o livro, mas gostei da ideia geral de tolerância e respeito às diferenças. O tópico é novo e ainda não discutido, então mais importante ainda a existência de obras que versam sobre ele.
    Apesar de ser uma estória simples, a protagonista tem um segredo a guardar ou contar, além de todos os conflitos vividos por adolescente comum.
    Bastante interessante também o fato de o livro mostrar partes do passado da garota, isso auxilia no entendimento do leitor. E, além disso, mostra o relacionamento com as outras pessoas, principalmente com o pai. Isto é bom pois vemos como o tópico é encarado quando nos vemos diante da situação acontecendo com um filho, por exemplo.
    Bom, gostei muito da ideia e da narrativa, parece ser mesmo uma estória leve que traz para o leitor uma lição de respeito e tolerância. Parabéns pela resenha!

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  4. Oi Italo, tudo bem?
    Que livro mais lindo, já fiquei com vontade de lê-lo apenas vendo a sua resenha. Eu acho super importante livros que abordem estas temáticas, como transsexualidade, homofobia, gordofobia, questões existenciais e outras, e é importante também o apoio da família nesses momentos. To curiosa pra saber como ficou o relacionamento entre o Grant e a Amanda, e principalmente como foi o desenvolvimento dela ao longo do livro. Fico feliz que o livro tenha te agradado, tenho certeza que me agradaria também, já está mais do que adicionado a lista de desejados.
    Beijos

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  5. Olá !!
    Nunca li uma resenha e nem sinopse desse livro e ele parece ser uma leitura maravilhosa !
    Aparentemente a autora conseguiu criar uma boa história com personagens bem construídos para abordar esse tema tão delicado!

    Com certeza vou conferir !
    Bjo

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  6. Ítalo!
    O respeito pelo outro, tem de existir sempre, independente de qualquer situação ou pensamento. Acredito que temos de parar de julgar as pessoas por suas opções de vida, pelas escolhas que elas fazem para si mesmas. Se isso acontecesse com frequência, certeza que os atritos seriam menores e a aceitação de qualquer situação seria mais frequente.
    Gostei de ver a abordagem dada pela autora. Realmente a família é o núcleo mais importante em nossas vidas e se o preconceto parte, justamente daí, as coisas ficam mais complicadas, porque deixamos de nos sentir acolhidos, nosso porto seguro se extremesse...
    Gostei da temática abordada e gostaria de ler o livro.
    Bom final de semana!
    “Educar é semear com sabedoria e colher com paciência.” (Augusto Cury)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  7. Oi.
    Gostei da premissa do livro e de todo o enfoque nesses temas de difícil discussão e tanto preconceito. Parece uma leitura que traz uma grande reflexão e nos faz valoriza e aceitar as pessoas da forma que escolhem viver e ser.
    Gostaria de ler.
    Ótima resenha, muito bem detalhada. Abraços.

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  8. Olá!
    Gostei muito desse livro, ainda não tinha lido a premissa. Acho super importante falar sobre esse tema, e é algo muito raro de se encontrar em outros livros. Também parece ser muito forte a forma com que o preconceito é tratado.
    Adoro temas assim <3
    Vou anotar a dica!
    Beijos

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  9. Olá!
    Um livro muito encantando e a trama dele realmente é maravilhosa. A forma de como a personagem enfrenta esses problemas é bem perculiar em nossa sociedade atual, muitos têm medo de mostra quem são por contas de preconceitos e etc., e a forma da autora aborda um tema tabu que muitos não comenta e interessante ela demonstra isso, a forma que a pessoa sente por causa disso e das pessoas. Gostei muito e com certeza vai pra lista de leitura.

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  10. Que livro mais encantador Italo! Quando vi o lançamento já coloquei na minha lista, pois a premissa me conquistou na hora, e fico empolgada em saber que essa história é cativante e envolvente. Esse é o segundo livro que conheço que aborda esse tema da transexualidade, também fiquei completamente cativada pelo livro Fera, quero ler ambos os livros.
    Adorei a história da Amanda, uma garota que irá trazer uma bela e singela história de autoaceitação e descobertas juntamente com o Grant, espero que esse personagem me cative igualmente. Amo livros que trazem a importância das amizades verdadeiras e sinceras, e também adoro quando a trama aborda os relacionamentos familiares dos protagonistas. Esse livro traz valiosas lições sobre a importância da empatia hoje em dia, de aprender a aceitar, a respeitar e, principalmente, a tolerar as diferenças.
    Beijos

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  11. Olá Italo ;)
    Assim que a editora anunciou esse lançamento já fiquei animada para ler, pois nunca li um livro que envolvesse a história de um personagem trans.
    O livro aborda esse tema delicado, e como você disse as vezes a sociedade não consegue respeitar esse direito de ser do próximo.
    Gostei que a autora aborda esse lado sobre o preconceito e a intolerância, e que apesar de não ser um livro tão real, como você disse, ele parece mostrar essa realidade que muitas pessoas vivenciam.
    Muito obrigada pela indicação, vou ver se leio o mais rápido possível!
    Abç

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  12. E muito bom ver que este e uma tema que tem ganhando uma grande proporção, e esta sendo apresentado muito na mídia, e cada vez mais nos deparamos na literatura, de certo modo ainda não sabia do que este livro se tratava e me surpreendi, já que me pareceu ter uma estória simples de superação, mas que faz o leitor repensar sobre o preconceito, e a intolerância, e acredito que muito leitores iram lhe identificar. Esta e mais uma obra que ira para a lista de desejados.

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  13. Oi, esse tema está realmente atual, e enquanto a maioria das pessoas tem uma opinião formada e expressa ela, principalmente pra criticar, eu não entendo muito e prefiro não discutir.
    Quero ler pra ter uma visão mais amplausível, não acompanho a novela, mas queria saber mais.
    Agora quero saber se ela ficou com o Grant, e como foi esse final aberto.

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