31 maio 2017

Resenha - Compre-me o céu


Título: Compre-me o céu
Autor: Xinran
Cortesia: Companhia das letras
Skoob / Goodreads
Páginas: 352
Onde Comprar: Saraiva / Amazon

Este livro fala de homens e mulheres nascidos na China depois de 1979 — as gerações recentes criadas sob a política do filho único. Dentro de suas famílias, são vistos como príncipes, mas tanto afago os tornou isolados, confusos e incapazes de lidar com a vida prática. Do filho de um executivo incapaz de arrumar a própria mala ao aluno de doutorado que superou a extrema pobreza, Xinran mostra como essas gerações encarnam os medos e as esperanças de um grande país num tempo de mudanças sem precedentes. É um momento de fragmentação, em que o capitalismo convive com o comunismo, a cidade com o campo e as oportunidades do Ocidente com as tradições do Oriente. Por meio das fascinantes histórias de filhos únicos, capturamos uma faceta decisiva da China contemporânea.









"Quase todas as vezes em que retorna da China, seja trabalhando como voluntário nos confins do interior, apanhando um trem comum por vinte horas (ele frequentemente faz isso como uma espécie de lição de casa sobre a China), ou visitando amigos e familiares na cidade, meu filho, Panpan, sempre volta tomado por novos questionamentos. Por que há uma diferença tão abissal entre as grandes cidades e o interior? Como é possível que, entre diversos lugares de um mesmo país, regidos pelos mesmos governantes, haja décadas de distância a separá-los? Como é possível entender as mudanças que estão ocorrendo na China? Quem representa o povo chinês hoje — os funcionários colarinhos-brancos, que circulam entre cidades e aeroportos? Ou os camponeses e os trabalhadores migrantes, que viajam a pé por aldeias rurais sacolejando entre uma e outra rodoviária? Se a China é um país comunista, por que os pobres de zonas rurais não têm apoio na hora do nascimento, da doença e da morte? E, se é um país capitalista, por que a economia é manejada por um governo de partido único?"

A china, o país mais populoso do mundo é imenso em extensão territorial, e também, abarca vários opostos: desde pessoas riquíssimas, até aqueles camponeses muito pobres, que mal possuem o que comer a cada dia. Pensando nessas diferenças, e também no crescimento populacional desenfreado, o governo, no final da década de 1970, resolveu implantar a política do filho único, fazendo com que cada casal fosse permitido a ter somente um filho, a fim de melhorar as condições de vida do país e para poderem oferecer uma melhor infraestrutura, uma vez que a saúde e a educação vinham se tornando cada vez mais precárias. Porém, essa política do filho único se mostrou em muitos momentos revoltante por uma diversidade de motivos, sendo os principais deles o sofrimento, quando eventualmente segundos filhos eram gerados e era necessário matá-los, pois já havia um na família, e também por que o crescimento de toda uma geração, sendo filhos únicos, os tornou pessoas mimadas, egoístas e muitas vezes desconhecedoras da realidade.

"Na verdade, aquele buraco negro de silêncio já havia se insinuado em incontáveis famílias de filhos únicos, todas quebrando a cabeça em busca de ideias, eu incluída, na qualidade de mãe de um filho único. Conforme educamos nossos “primeiros e únicos”, passamos dias e noites temendo algum acidente raro. À medida que crescem, nossos preciosos “primeiros e únicos” parecem criar buracos negros próprios que sugam toda a energia à sua volta, exaurindo a nós, os pais, que havíamos começado cheios de vigor, determinação e ardor, mas sem nos libertar das preocupações. Constantemente perguntamos: “Será que nosso ‘primeiro e único’ está em segurança, e feliz?”. Junto com nossos filhos, escrevemos um “primeiro e único” capítulo nos livros de história da China, um buraco negro de invenção e verdade — a era dos filhos únicos."

Com esses fatores e essa política do filho único chamando cada vez mais atenção, e mesmo se mostrando incompreensível para o resto do mundo, Xinran, uma jornalista chinesa que se mudou para a Inglaterra, resolveu, a partir de suas experiências e contatos com filhos únicos da China, que ela recebeu muitas vezes em sua própria casa, relatar suas histórias em um livro, para que nós, que não conhecemos a diversidade e as regras chinesas, pudéssemos, entender e nos solidarizar com essa geração que não pode experimentar o companheirismo de um irmão, que não pode experimentar a liberdade, por serem sufocados e mimados por seus pais, e que, em muitas vezes não puderam conhecer com propriedade o mundo ao seu redor.

"Penso que os pais de Yao Jiaxin, como a maioria dos pais de filhos únicos na China, depositaram todos os seus esforços e esperanças no pequeno Yao, acreditando que isso era amor paterno e materno. Porém, somente os jovens dessa geração tiveram de carregar o fardo das vidas e das responsabilidades de seus irmãos e de suas irmãs que nunca nasceriam. Eles gozaram de todos os benefícios materiais, do amor e dos cuidados espirituais que deveriam ter sido partilhados com seus irmãos e irmãs nunca nascidos. Por essa razão, tiveram pouca prática com comunicação, amizades, para partilhar, ajudar os outros e receber auxílio em retorno, para a tolerância e para todas as outras habilidades interpessoais básicas que se aprendem ao crescer. Era como se o mundo inteiro fosse só deles. Essa geração de filhos únicos padeceu da falta de todas as experiências partilhadas que se originam do fato de se ter irmãos. Estavam sempre sozinhos em suas idas e vindas, e, assim, inevitavelmente emergiam problemas de personalidade e de falta de compaixão."

Através de uma narrativa sincera, que nos aproxima da autora, Xinran nos insere no seio da China e nos dá muito o que pensar com essa história com um título tão apropriado para o que ela nos demonstra em cada uma das páginas.

"Ontem, depois de passar a noite em claro, lembrei da primeira vez em que fiquei acordada a noite inteira na universidade, na Inglaterra. Ainda me lembro, liguei para você no dia seguinte, eu estava tão excitada por ter virado a noite! Na época, eu ainda não tinha começado a pensar em quantas crianças no interior rural da China passam a noite acordadas porque não têm o que comer ou roupas para vestir. Naquelas escolas em que não há lugar para a infância, quantas delas passam as noites acordadas por causa de provas? E quantos filhos de trabalhadores migrantes passam a noite acordados, esperando por um emprego? Comecei a pensar nessas coisas agora.
Lembro que você me disse que, uma vez que começasse a pensar nos outros e na minha responsabilidade perante eles, terei crescido. Então, no voo para o Canadá, eu não parava de pensar: será que cresci, de verdade?"


[- Minhas Impressões -]

Esse livro foi minha segunda experiência de leitura de alguma obra da autora Chinran, e confesso que gosto muito de conhecer esses pedacinhos da China através dos olhos dessa jornalista tão competente, que nos faz sentir tudo o que ela relata. Assim que descobri sobre esse lançamento, logo me empolguei pois há algum tempo que eu não via novos lançamentos da autora aqui no brasil, e também porque o livro traz uma temática muito interessante, que é essa política do filho único, que parece tão incompreensível para nós, que moramos em um país onde ninguém controla se queremos filhos ou quantos queremos ter. E assim que comecei a leitura, fui logo absorvida para aqueles relatos tão pungentes e tristes, que nos falam de filhos que na maioria das vezes tiveram tudo de material que desejaram, mas que não tiveram sentimentos básicos como aprender a se importar com um irmão, ou um próximo, não aprenderam a dividir, a ter empatia, ou sequer aprenderam a fazer coisas básicas como cozinhar, dobrar suas roupas ou, ainda, sequer sabiam o que era uma geladeira, pois sempre tinham quem lhes servisse e quem lhes fizesse todas as vontades, e todos esses comportamentos eram considerados normais, até o dia em que seus pais resolveram lhes enviar para estudar fora da china, e eles puderam notar, com assombro, a diferença cultural e tudo aquilo que perderam.

O ponto mais positivo da obra para mim, é certamente a diversidade de histórias que a autora nos apresenta. Ela nos mostra desde filhos ricos, até alguns com menos condições, mas todos criados da mesma maneira. Ela nos mostra também filhos que gostariam de se libertar desse poder opressor dos pais, e também àqueles que se sentiam confortáveis com toda aquela atenção e que não compreendiam o porque precisavam efetuar alguma mudança em suas vidas. Além disso, enquanto ouvimos os relatos de cada jovem, somos capazes de conhecer pedaços da cultura da china que sequer tínhamos ideia que existiam, e conhecemos também sonhos simples de jovens que nunca puderam realizá-los. Ainda, gosto de acompanhar a vida da autora através do livro, enquanto ela fala dos jovens e também nos deixa entrever informações do belo trabalho que ela faz sempre trazendo para o ocidente, informações sobre a China, que é tão fechada em termos de informações para os que a desconhecem.

Mas confesso também que o outro livro que li da autora me cativou mais. Esse apesar de muito interessante, em alguns momentos tinha muitas informações irrelevantes que me deixaram um pouco entediada e que me fizeram querer pular algumas páginas. Também, devo alertar que para leitores que não gostam de livros extremamente realistas, com uma escrita um pouco mais densa, essa certamente não será uma recomendação interessante.

Cada filho único da china apresentado me marcou de alguma forma. Alguns, por sua determinação em aprender, em ser e se tornar algo diferente do que eram. Outros, por terem pensamentos tão revoltados, que deixavam de falar com os pais para tentarem se libertar. Mas também, podemos, as vezes, encontrar breves falas dos pais desses filhos, e compreendemos também seus lados, querendo proteger e mimar seus tesouros, pois essa foi a única forma de criação que lhes foi ensinada.
A obra é dividida em dez capítulos, acrescidos de um posfácio e de três apêndices, que esclarecem algumas coisas bastante interessantes. a narração é feita em primeira pessoa, por Xinran, que fala sobre cada um dos jovens que conheceu. Ainda, realizei a leitura em ebook e não encontrei erros.
Recomendo essa obra para leitores que gostam de conhecer histórias reais, e viajar, através do livro, para uma cultura totalmente diferente da que conhecemos, e também, para aqueles que gostam de obras que nos levam a refletir sobre o mundo, sobre nossos papéis nele e também sobre aqueles que pisam na mesma terra que nós mas que são tão diferentes.



Resenha desenvolvida por Tamara Padilha  
( Não faz mais parte da Equipe )
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2 comentários:

  1. Stefani!
    Gosto também de conhecer um pouco mais sobre os países asiáticos e a China é muito populosa, por isso a política do filho único.
    Gostaria de ter a oportunidade de ler as histórias que a autora relana no livro, devem ser bem interessantes.
    Desejo um mês cheio de prosperidade!
    “A sabedoria consiste em compreender que o tempo dedicado ao trabalho nunca é perdido.” (Ralph Waldo Emerson)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JUNHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  2. Olá!
    Que capa encantadora! Amei! Então o único livro que li que fala realmente sobre o oriente foi A Arte da Guerra de Sun Tzu e como o nome já sugere é sobre estrategias de guerra. Enfim não teria muito interesse pela historia do livro, por mais que seja cativante descobrir e viver algumas historias emocionantes, mas é algo que não me agradaria, gostei muito da resenha e das impressões foram claras e objetivas, já alertando o leitor o que há por vir no livro.
    Bjs!!
    http://coisasdeanalima.blogspot.com.br/

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