24 janeiro 2017

Resenha - A Filha Perdida




Título: A Filha Perdida  
Autora: 
Elena Ferrante
Editora: Intrínseca
Skoob Goodreads
Páginas: 176 páginas
Onde Comprar: Saraiva / Submarino / Amazon

Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida — e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém. No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Elena Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode ter na vida de diferentes gerações de mulheres.











Leda é uma professora universitária de 47 anos que, após a partida de suas duas filhas para a casa do pai no Canadá, finalmente é capaz de se sentir livre. Para aproveitar essa oportunidade de liberdade, ela decide ir a uma praia no sul da Itália, e depois de alguns dias tomando sol, acaba reparando em uma família que se apropria dali perto. Diante de vários membros do clã napolitano, Leda não consegue desprender sua atenção de uma mãe jovem chamada Nina e sua pequena filha, Elena, que vive brincando com sua boneca e a tratando de um modo maternal. Enquanto observa as duas discretamente, suas brincadeiras de mãe e filha, e suas relações com os outros parentes, Leda acaba por refletir seu próprio passado ao que se refere à sua experiência como mãe e também como filha.


É a partir do ponto em que Leda se vê envolvida com Nina que a história passa a se desenvolver. Acompanhamos todos os seus sentimentos, memórias e pensamentos desordenados, que aquela família de Nápoles acaba incitando-na de forma involuntária. Voltando ao passado enquanto analisa Nina e Elena e os seus modos de vida, Leda nos conta todas as suas expectativas da época em que era esposa e suas dificuldades em lidar com as filhas, retratando tudo sob uma ótica da maternidade que mal é investigada.

“O corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota e, enquanto isso, os seios crescem, os lábios do sexo incham, a carne pulsa com uma vida redonda que é sua, a sua vida, mas que empurra você para longe, não lhe dá atenção, embora habite sua barriga, alegre e pesada, desfrutada como um impulso voraz e, todavia, repulsiva como o enxerto de um inseto venenoso em uma veia.”

Não posso deixar de frisar que esse não é um livro de grandes acontecimentos ou que irá despertar fortes emoções no leitor. É uma história que te faz refletir e que desconstrói de um modo bruto a maternidade, revelando toda a verdade sobre ela, que poucas pessoas têm a audácia de dizer. Eu adorei a temática abordada pela autora, pois compartilho do mesmo ponto de vista que ela, e, nesse livro, ela conseguiu complementar ainda mais minhas opiniões a respeito. É difícil encontrar histórias que falem sobre o assunto sem enaltecer os benefícios da maternidade o tempo todo, ou tratá-la como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo, e que a mulher só irá ser recompensada com tanto amor. É claro que Leda ama as suas filhas, e deixa isso claro várias vezes, mas não deixa de salientar o quanto é trabalhoso e cansativo. Sabe como as pessoas acreditam no Papai Noel e depois descobrem que ele não existe? É mais ou menos esse papel de mãe é desmascarado no livro.

Com uma escrita direta e sem rodeios, a autora faz com que levantemos questões que geram várias reflexões sobre tudo aquilo que ensinaram a nós, mulheres: o que é certo ou errado. Sobre como deveria ser o papel da maternidade e se qualquer pessoa do sexo feminino é capaz de exercer essa árdua função. E principalmente, sobre saber alimentar o amor próprio e não deixar que as responsabilidades de ser mãe afetem isso. É muito comum observarmos as mulheres que, quando se tornam mães, acabam devotando sua vida toda aos seus filhos de forma tão rigorosa, que suas próprias identidades acabam se perdendo. Leda não deixou que isso ocorresse a ela, e por mais que suas ações tenham sido questionáveis, isso foi algo que me fez sentir carisma pela personagem.

“Os filhos são assim, às vezes amam com afagos, outras vezes tentam mudá-la totalmente, reinventado você, como se achassem que cresceu mal e que é dever deles ensinar a como estar no mundo, a música que você deve ouvir, os livros que deve ler, os filmes que deve assistir, as palavras que deve ou não usar porque são velhas, ninguém as usa mais.”

É importante ressaltar que essa não é uma história para qualquer leitor, ou melhor dizendo, leitora. É preciso ter uma mente bem aberta para que seja possível compreender Leda, toda a sua experiência como mãe e suas perspectivas em relação à família que observa e analisa. Ela é uma personagem antipática e egocêntrica, e creio que a intenção da autora Elena Ferrante foi justamente essa: remover todo o brilhantismo que a sociedade tanto insiste em dar acerca do papel da maternidade.

A diagramação é bem simples e a revisão foi feita de um modo impecável, pois não encontrei um único erro. Como ressaltei na resenha, esse não é um livro que irá agradar qualquer pessoa; é uma mistura de ficção e realismo que nos faz gerar várias reflexões sobre as questões do cotidiano que todos nós vivenciamos. Apesar de ser muito curto e a narrativa seguir uma linha uniforme, sem grandes acontecimentos, eu recomendo a leitura.


23 comentários:

  1. Olá!
    Esse é o livro do autor anônimo que na verdade ninguém sabe se é autor ou autora? A capa é muito bonita e diferente. Gostei da sua resenha deixou um gostinho de quero mais, e só de saber que o livro derruba toda a visão que temos de maternidade nossa, fiquei doidinho kkkkkkm, preciso ler isso!

    Abraços

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  2. Oi, Amanda!
    Pela capa o livro não me chamaria atenção, mas sua resenha me deixou um pouco interessada. Esse livro deve servir bem para as futuras mães e aquelas que já são, não é? Achei bacana a proposta da autora de construir uma mãe não convencional, aquela que vive para os filhos e esqueci de si.
    Beijão!
    http://www.lagarota.com.br/
    http://www.asmeninasqueleemlivros.com/

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  3. Oi Amanda, tudo bem ?
    Achei sua resenha muito interessante e o conteúdo do livro também. Acabo de me tornar mãe pela segunda vez e são duas experiências completamente diferentes.
    Acho bacana abordagens com este tema, mesmo que seja para mostrar tipos de mãe diferentes.
    Beijos
    www.estilo-gisele.blogspot.com.br

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  4. Olá,

    Já tinha visto esse livro antes, mas não sabia que a temática era justamente a maternidade.Gostei de saber que nele, o assunto é tratado de uma forma mais realística e crua, afinal só encontro livros enaltecendo esse período, nunca apontando os desafios e o psicológico das mães, que por vezes sustentam sua sanidade com muita dificuldade. Eu confesso que não gosto muito de livros escassos de acontecimentos, por isso irei passar a dica por enquanto. Mas futuramente pretendo adquirir um exemplar e refletir mais sobre essa temática.

    Abraços,
    Cá Entre Nós

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  5. Oie amore,
    Já vi alguma coisa sobre esse livro, mais não me chama atenção não, seja pela capa que pra ser sincera não curti muito, ou, pelo fato de ler não só você mais alguns leitores mencionarem que se trata de um livro sem muitos acontecimentos e tals.
    E o fato dessa personagem ser antipática e egocêntrica me afasta ainda mais da vontade de querer ler, já vejo isso quase todos os dias.

    Beijokas!
    www.facesdeumacapa.com.br

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  6. Olá, Amanda! Tudo bem?

    Essa é a primeira vez que leio algo sobre esse livro, na verdade, é a primeira vez que sou apresentada a ele. Devo dizer que, realmente, não sou o tipo de leitora para ele. Posso estar errada, mas acho que não gostaria da leitura. No entanto, gostei muito da sua resenha, e da sua opinião da trama.

    Beijos,
    Dai | Virando a Página

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  7. Oiii!!!
    Nossa finalmente um livro que mostra a realidade que eu vejo por ai rs. Gostei muito da sua resenha, despertou minha curiosidade para ver os relatos de Leda a respeito da sua experiência como mãe. Imagino as reclamações rs, acho que quando eu for mãe, vou fazer uns relatos desses, mesmo amando o meu filho claro. Expor o lado negativo, não te faz uma mãe ruim, muito pelo contrário, concordo com vc na parte do "deixar de acreditar em papai noel", acredito também que é basicamente a mesma coisa rs.
    Beijos

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  8. Olá!
    Adoro livros que tratam da realidade e nos levam a reflexão, gostaria muito de saber das percepções da Leda durante a história, e quais as análises que ela fez; não é fácil falar sobre esse assunto e gostei de saber que a autora falou sobre, não leria esse livro nesse momento, mas vou deixar a dica anotada para ler em breve num momento mais propício.
    Beijos,Lari.
    Segredosdeumacerejeira.blogspot.com

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  9. Olá, estava curiosa para ler uma resenha de algum livro da autora, pois houve todo um bafafá em torno da identidade dela, já que esse nome é um pseudônimo. Esse livro me parece interessante por trazer a questão da maternidade não romantizada, por isso é um a leitura que eu faria.

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  10. Oi, Amanda

    Eu não conhecia esse livro. Percebe-se mesmo que não é uma história de grandes acontecimentos. Eu sempre digo que para uma pessoa ser mãe ela tem que querer muito, ser mãe não é fácil. Eu nunca fui iludida por frases que enaltecem a maternidade, sempre soube que é difícil, ainda mais por ter praticamente criado meus sobrinhos. Me sinto muito preparada para ser mãe, e sei o que me espera quando eu chegar lá.

    Beijo

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  11. Oiee Amanda ^^
    Já li alguns livros que desconstruíam a maravilha que é a maternidade, mas eram romances ou histórias mais ficção que essa, sabe? Parece ser um livro bacana, gostei do que você disse a respeito dele, mas não o leria por ora...hehe' estou em busca de livros com mais emoção e com reviravoltas *-*
    MilkMilks ♥

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  12. Oi, tenho que confessar que apesar da temática tratada, de achar algo bem interessante essa desconstrução da maternidade... esse livro não conseguiu me cativar para que eu o desejasse. Acho que é algo legal de ler, principalmente pela protagonista já ser mais velha, já ter criado sua família e etc... Mas não sei, algo não conseguiu me fazer ter aquela vontade de ler. Mas fico feliz que tenha sido uma leitura agradável para você que te fez refletir. Deixarei passar a dica por enquanto, mas quem sabe mais para frente eu leia!
    Um beijo
    www.brookebells.com

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  13. Olá ♥
    Já vi essa capa rolando nas redes sociais, mas nunca procurei saber de fato o que se tratava por ser uma capa que não me chama atenção. Premissa em si não me agradou, mas quando fui ler suas considerações, fiquei curiosa de fato para saber um pouco mais sobre a obra. Quando você diz que a obra nos faz refletir me deixou instiga,pois gosto muito de livros que nos trás uma mensagem. Também gostei de saber que temos que ir com mente aberta para fazer a leitura.
    Parabéns pela resenha ♥

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  14. Olá! Bom que você avisou que não é uma história para qualquer leitor e tem que deixar a mente aberta para o livro. Eu acho que é sempre bom ter a cabeça aberta para uma história. Realmente a sociedade dar acerca do papel da maternidade, poucos que não, que bom que a autora falou isso de forma brilhante. Anotei a dica. Beijos'

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  15. Fui apresentada a esse livro em um evento da Intrínseca e de cara ele não me atraiu, e continua não chamando a minha atenção. Maternidade não é um assunto que me atrai, quanto a isso só acho que nem toda mulher deveria ser mãe e que se uma pessoa não se sente livre em um relacionamento me parece que fez a escolha errada ou se deixou levar pelos outros. Tenho uma amiga que é mãe e diz que não é fácil, mas que ela já estava disposta a abrir mão de algumas coisas para viver outras quando escolheu engravidar, e é muito feliz com a escolha que fez.

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  16. O livro é ótimo para as mulheres que querem entender mais essa relação entre ser mãe e mulher, assim definem se estão prontas ou não para entrarem neste mundo. Gostei de como a autora resolveu tratar do tema, de uma maneira lúdica e leve. Vou repassar a dica para umas amigas.

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  17. Olá!
    Eu simplesmente amei a sua resenha! Gostei de conhecer um livro que fala realmente como a maternidade é, nua e crua. Toda vez que perguntamos realmente só falam o lado bom dela e não o quanto cansativo é, e que talvez nem todas as mulheres queiram isso para as suas vidas.
    Beijos.

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  18. Oi Amanda, tudo bem?
    Gostei MUITO da tua resenha sobre esse livro e com certeza tuas palavras sobre ele me deixaram muito curiosa com relação a ele. Até porque a temática desse livro definitivamente foi tratada de um jeito bem pouco comum, o que por si só já me deixa com vontade de ler.
    Abraços e beijos da Lady Trotsky...
    http://rillismo.blogspot.com

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  19. Ainda não li nada dessa autora, a conheci recentemente. E amei o tema, é algo que acredito que todas as mulheres devam ler e refletir sobre... E no final, acabar refletindo sobre qual é o seu papel como mulher na sociedade...

    Acredito que durante muitos anos a mulher tenha sido obrigada a permanecer na posição de mãe, unicamente... Então ler ago que bate de frente com isso e tira a mãe desse papel de santa - sagrada - do lar deve ser realmente incrível!

    Me lembrou da mãe existente em Objetos Cortantes, de Gillian Flinn. Ela também quebra o espelho nesse quesito...

    Ótima resenha!

    Abraços!
    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  20. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia esse livro ainda, mas achei interessante o tema que ele aborda, mais ainda porque desconstrói essa ideia da maternidade é perfeita, pois não é, é cansativa, não é mesmo? Gostei também de saber que a escrita é direta, tanto que é um livro curtinho, né? Enfim, gostei bastante da dica de hoje, vou marcar.;

    Beijos :*

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  21. Oi Amanda, tudo bem?
    Eu quero muito fazer a leitura de A Filha Perdida. A capa nunca me chamou atenção, mas ao ler resenhas destacando a personalidade de Leda, fez com que eu me sentisse na obrigação de ler o livro. Ela é uma personagem na qual quero muito conhecer.

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  22. Olá, tudo bem?
    Um livro que já vem com um aviso por sua parte. Um aviso que é preciso ter mente aberta e que esse não é um livro para qualquer um me deixou bem curiosa, mesmo não sendo um livro que eu geralmente escolheria quando eu fosse para a livraria. Anotei a dica. Beijos

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  23. Oi Amanda, tudo bem?

    Creio que a sua foi a primeira resenha que li sobre A filha Perdida!

    Fiquei um tanto quanto curiosa após ler suas impressões, principalmente por ressaltar que não é pra qualquer tipo de leitorA. Gostei muito de saber que é um livro curto, o que me induz a desejar a leitura por hora!

    Obrigada pela recomendação!

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