20 março 2018

Resenha - A Revolução dos Bichos

Título: A Revolução dos Bichos
Autor: George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 152
Onde comprar: Americanas / Submarino

Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista.
De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão seria Stálin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos - expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História - mimetizam os que estavam em curso na União Soviética.
Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A revolução dos bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto.
Depois das profundas transformações políticas que mudaram a fisionomia do planeta nas últimas décadas, a pequena obra-prima de Orwell pode ser vista sem o viés ideológico reducionista. Mais de sessenta anos depois de escrita, ela mantém o viço e o brilho de uma alegoria perene sobre as fraquezas humanas que levam à corrosão dos grandes projetos de revolução política. É irônico que o escritor, para fazer esse retrato cruel da humanidade, tenha recorrido aos animais como personagens. De certo modo, a inteligência política que humaniza seus bichos é a mesma que animaliza os homens.
Escrito com perfeito domínio da narrativa, atenção às minúcias e extraordinária capacidade de criação de personagens e situações, A revolução dos bichos combina de maneira feliz duas ricas tradições literárias: a das fábulas morais, que remontam a Esopo, e a da sátira política, que teve talvez em Jonathan Swift seu representante máximo.




Em A Revolução dos Bichos acompanhamos os animais da Granja do Solar se revoltarem contra o seu dono e tomarem o espaço da fazenda a fim de construir uma sociedade igualitária animal onde o único inimigo é claro: os humanos.

Quem começa essa revolta é o porco chamado Major que sonhou com essa mudança mas que não viveu para vê-la ser concretizada. Logo, quem fica no seu lugar encabeçando a liderança são os porcos Bola-de-Neve e Napoleão.


Na busca por manter o espaço em ordem foram instituídos mandamentos que os animais deveriam seguir a risca para não perderem a Granja para os humanos no futuro e não haver a desordem no local. Os trabalhos dos animais foram dividos de forma igualitária, assim como as rações que nunca foram abundantes, já que antes da revolução eles trabalhavam horas a fio e comiam escassamente.

A medida que a Granja dos Animais - eles modificaram o nome como marco da revolução - começa a prosperar e a qualidade de vida dos animais no local aumenta e um acontecimento abala as estruturas que não é percebido ou muito menos questionado em boa parte do enredo: o porco Napoleão expulsa Bola-de-Neve e toma para si a administração trazendo mudanças ditatoriais nada sutis alegando que elas são as responsáveis pelas "melhorias" na fazenda, só que no decorrer dos capítulos fica claro que não, a igualdade que antes era um dos mandamentos principais é modificado e os porcos ascendem a uma posição de privilégios.

Enquanto essas mudanças são implantadas os animais não tem tempo para se dedicar a raciocinar o que está acontecendo pois há batalhas a serem travadas contra os humanos que ameaçam possuir a Granja. mas fica claro que a cada dia que passa eles estão mais próximos do que eram suas vidas antes da revolução sobre a mão do fazendeiro Jones e seus empregados, a diferença agora é o fato deles estarem sendo mandados por um porco e não por um humano.


É surpreendente imaginar todos os animais conseguindo aprender nossa língua e expressando e extravasando suas revoltadas contidas no decorrer de anos. Perturba perceber o quanto os humanos podem ser cruéis com aqueles a quem são os responsáveis, em sua maioria, por suas alimentações principais diárias.

Com uma escrita de fácil compreensão, George Orwell não precisa de muito para apresentar sua crítica através desse enredo curto e rápido. Ele usa como base o socialismo puro para enfatizar o anseio dos animais pela igualdade entre si, mas a medida que os acontecimentos vão sendo apresentados e os cenários vão se tornando fortificados percebemos que essa doutrina está sendo usado de maneira equivocada nos remetendo a história da humanidade onde o homem, carregado de egoísmo e sede de poder, usou essa doutrina a seu bem-prazer e enganando a vários. Os animais - sem serem os porcos - da Granja representam a população em massa humana que não entende do jogo dos tronos políticos e se deixa influenciar e acreditar nas propostas daqueles que colocamos no poder através de seus discursos convincentes, principalmente no passado.

São vários os momentos em que alguns dos animais pensam em reclamar das mudanças que o porco Napoleão está trazendo mas são duramente calados por sua armada/escolta canina. Inclusive tem um grupo de animais que sempre ficam em dúvida quando o porta-voz do Napoleão o defende alegando que está cumprindo os mandamentos e quando eles olham para a parede onde foi escrito está da forma como o porta-voz diz.

Vi Napoleão ser a encarnação do Hitler principalmente pelo fato de transparecer uma certa paranoia que mais adiante é explicado como somente uma arma para fazer os animais ficarem tensos e obedecerem sem questionar com medo de ver o fazendeiro Jones voltar e trazer dor.


Foi ao concluir a leitura e ler o apêndice que compreendi em quais figuras políticas o autor se baseou para criar os animais ditatoriais desse enredo. Logo, a vontade de pesquisar mais sobre a história da Rússia aumentou uma vez que o histórico da Alemanha é o que geralmente procuramos quando falamos de ditadura num passado recente.

Não foram poucos os momentos em que me vi odiando fortemente os porcos com seus discursos na ponta da língua e ares de sabem tudo. O sentimento de revolta me acompanhou do início ao fim uma vez que lia eles deturbarem a doutrina socialista.

As cenas finais da obra me frustraram principalmente pelo fim abrupto que foi orquestrado pelo autor, mas que não me agradou em nada. Sou dos que preferem a justiça ser feita mesmo sabendo que isso nem sempre acontece na vida real mas é de se esperar mesmo que somente na ficção.

A tentativa de trazer complexidade aos animais - sem ser os porcos - é tentada, mas Orwell limita os seus pensamentos pois só assim eles obedeceram sem questionar, representaram o que eles tem que representar (a população humana em massa). Se os animais tivessem o senso crítico apurado não teria como criar o enredo dessa obra a que se destina e a revolta que causa no leitor não ocorreria.


Com uma capa colorida que traz ar imponente ao porco a obra possui páginas amareladas, capítulos curtos, fonte das letras mediana para o formato pequeno da obra e infelizmente espaçamento entre os parágrafos pequeno.

Recomendo a obra para todo leitor que busca entender a história da humanidade e seus conflitos mas de uma maneira introdutória e de fácil compreensão nessa fábula que até os dias de hoje é moderna e atual.

Se Inscreva e Participe!!!



9 comentários:

  1. Oii!
    Eu sou completamente apaixonada por George Orwell e eu amo muito Revolução dos Bichos.
    Ao contrário de você, eu gostei muito do final. Eu realmente gosto quando o final é completamente diferente do esperado. :P
    Beijo

    Canastra Literária

    ResponderExcluir
  2. Orwell é um ícone das letras! Dificilmente a gente encontra um leitor que não tenha tido contato com suas letras e suas "maluquices".
    Eu amo a escrita dele e essa dura crítica a uma sociedade tão consumista, egoísta é fabulosa.
    Mesmo já fazendo um bom tempo que li este livro, me recordo que na época também quis matar o porco e fritar ele bem fritinho.rs até entender que muitos de nós, tem essa pitada de porco em nós!
    Super recomendado!
    Beijo

    ResponderExcluir
  3. Oi Bruno.
    Já li esse livro e adorei a crítica à sociedade, ao socialismo e ao capitalismo que ele apresenta.
    Achei brilhante o autor usar a narrativa sob ponto de vista dos animais. Assim podemos observar como eles eram tratados e entender os motivos da revolução.
    Achei as críticas válidas sobre como os que estão no poder têm seus ideais corrompidos e como eles conseguem manipular a população para atender seus desejos ao dizer que aquilo é o melhor para eles.
    Eu gostei bastante do final. Acho que foi condizente com o que estava acontecendo na trama.
    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Bruno!
    É um dos melhores escritores contemporâneos e nessa obra, o paralelo com a raça humana e o comportamento que temos, nossas reações e nossos problemas, mostra na realidade que a obra, nada tem de infantil.
    É um livro atemporal e muito bem escrito, uma verdadeira sátira política.
    George Orwell foi um grande visionário, além de seu tempo.
    O primeiro livro dele que li foi 1984 e fiquei estarrecida na época porque faltavam apenas 4 anos para 84 chegar e ficava imaginando se tudo que estava no livro acontecesse?!...
    Aqui a analogia que ele faz com o período da segunda guerra é fantástica, principalmente porque se a obra fosse escrita com personagens humanos, aí é que ele não conseguiria editá--lo mesmo, por causa da censura.
    “Não acredite em tudo que ouvires! Há mentiras que sempre serão ditas, e verdades que jamais serão pronunciadas...” (Eliane Azevedo)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA MARÇO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

    ResponderExcluir
  5. Estou a pouco tempo me abrindo para os livros de Segunda Guerra, por puro preconceito e hoje me arrependo de nao ter descoberto antes esse tema. Devido a esse meu "atraso" ainda não tive a oportunidade de ler A revolução dos bichos e nem 1984 que certamente são livros classicos do autor que todos devem ler. Já li vários resenhas e comentários e a cada novo parecer, mais me convenço de que esse (s) livros tem muito o que acrescentar. como pode um livro escrito a tanto tempo atras ainda ser atual e causar impacto em quem o lê

    ResponderExcluir
  6. Eu tô querendo muuuuito comprar esse livro para ler, pois será uma experiência boa assim penso. Eu li ótimas indicações sobre a história e fiquei bastante interessada nele. Também achei bastante diferente a capa.

    ResponderExcluir
  7. A revolução dos bichos está na minha lista há muuuito tempo. Já ouvi muitos elogios, e o tema é ainda mais atraente por se tratar de críticas do mundo real. Quando detalhes realistas estão embutidos na história, o enredo fica ainda mais incrível! Ainda mais com um humor crítico e sagaz desse renomado autor!

    ResponderExcluir
  8. Oi Bruno
    Que foto incrível! O livro não tem como não achar maravilhoso.
    Adoro como o George consegue fazer essa crítica utilizando animais e organizando uma sociedade toda de forma fácil. Não é o retrato totalmente exato sim mas é um ótimo inicio.
    Também odiei os porcos em certos momentos, e o final, claro que não é o que todo mundo esperava mas eu gostei bastante.

    ResponderExcluir
  9. Oi Bruno. Orwell foi um autor genial, extremamente politizado e crítico e conseguiu pôr no papel todos os seus pensamentos sobre a ameaça dos governos ditatoriais. Ainda não li Revolução dos Bichos, mas tive o prazer de ler 1984 e é um dos melhores livros que já li na vida. A escrita do autor é assombrosa, o conhecimento dele, as divagações e teses que ele apresenta são riquíssimas. Acredito que este livro seja bem mais leve que 1984 porque se trata de uma fábula, mas o conteúdo é igualmente perturbador e importante. Vou ler assim que possível.
    Beijos.

    ResponderExcluir