29 dezembro 2017

Resenha - No seu pescoço


Título: No seu pescoço
Autor: Chimamanda Ngozi Adiche
Cortesia: Companhia das Letras
Páginas: 240
Onde comprar: Amazon

No seu pescoço contém todos os elementos que fazem de Adichie uma das principais escritoras contemporâneas. Nos doze contos que compõem o volume, encontramos a sensibilidade da autora voltada para a temática da imigração, da desigualdade racial, dos conflitos religiosos e das relações familiares. Combinando técnicas da narrativa convencional com experimentalismo, como no conto que dá nome ao livro — escrito em segunda pessoa —, Adichie parte da perspectiva do indivíduo para atingir o universal que há em cada um de nós e, com isso, proporciona a seus leitores a experiência da empatia, bem escassa em nossos tempos.





Este não é um livro de contos qualquer, porque requer uma dedicação e reflexão por parte do leitor, Em seus contos, a Chimamanda Ngozi Adichie, autora de No seu pescoço prega uma peça nos leitores usando a segunda pessoa (mais a frente irei explicar). A obra tem uma escrita leve, mas o seu conteúdo dilacera nossas almas por trazer a realidade de um continente: África. Lançado pela Companhia das Letras, a obra reúne contos em que a autora aborda a vida de personagens estrangeiros na América do Norte. Outrora, ela também critica o modo como as mulheres são tratadas em seu país, a Nigéria.

Sabemos que a literatura abre janelas para conhecer outros mundos. Ela permite que o autor coloque um pouco de si em seus livros, como também evoque a curiosidade no leitor para diversas temáticas. Atualmente, a literatura africana, em especifico, a literatura Nigeriana têm sido disciplinas nos cursos de graduação e pós-graduação em Letras. Nós bem sabemos as dificuldades enfrentadas pelo povo africano. A desigualdade social e de gênero, a fome, conflitos religiosos, relações familiares são os principais temas abordados no livro No seu pescoço.

"Como você pode amar alguém e ao mesmo tempo querer controlar o nível de felicidade que é permitido à pessoa?"
"_A sua fé é quase uma briga. Por que Deus não pode se revelar de maneira não ambígua e esclarecer as coisas de um vez por todas? Qual o sentido de Deus ser um enigma?_Porque é a natureza de Deus. Se você compreender a ideia física de que a natureza de Deus é diferente da natureza humana, então isso vai fazer sentido."

Uma coletânea de contos que demonstram a vulnerabilidade das pessoas que lidam com o desconhecido. Como vemos em um dos contos intitulado de: A embaixada americana. Adichie descreve, meticulosamente, as dificuldades enfrentadas por estrangeiros que tentam tirar o Green Card. Com certo tom de humor, o conto revela as diversas tentativas frustradas de uma personagem que sofre com o preconceito e desigualdade social.

Por outro lado, o conto que mais chamou a minha atenção tem o mesmo título do livro: No seu pescoço. Para quem acredita que escrever na segunda pessoa é impossível pode desfazer suas impossibilidades, porque Ngozi tece um enredo cujo narrador conversa com a personagem e com o seu leitor. Essa é a carta na manga: a voz do subconsciente que permeia todo o enredo e nos faz refletir sobre uma personagem que saiu do seu país para melhores condições de vida, e ao chegar aqui sofre diversos absurdos. O primeiro dele é o "quase" abuso pelo cara que ela chama de "tio". Ele bancou toda a viagem e estadia da menina. Segundo ele, este seria o seu pagamento! Mas ela foge, e passa a viver as dificuldades de um imigrante sem Green Card. Para piorar, ela tem que conviver com uma cultura estranha: desde a comida até os olhares quando ela revela a sua origem.

Ninguém sabia onde você estava, pois você não contou. Às vezes, você se sentia invisível e tentava atravessar a parede entre o seu quarto e o corredor e, quando batia na parede, ficava com manchas roxas no braço. Certa vez, Juan perguntou se você tinha um namorado violento, pois você daria um jeito nele, e você deu uma risada misteriosa.

Os contos são joias raras do nosso século. Apesar de ter sido lançado em 2009, ele só ganhou tradução para o português este ano. Chimamanda não apenas fala de si, como também fala do seu país e as dificuldades vividas pelo seu povo. Sua própria estória traça um perfil nítido de suas vivências.

À noite, algo se enroscava no seu pescoço, algo que por muito pouco não lhe sufocava antes de você cair no sono.

Cada personagem por ela criado traz um pouco de si, do seu pai, da sua mãe, daquele "tio" ou daquela menina que sempre desejou ter qualidade de vida, mas sabia que não seria possível naquele país. Percebemos a discrepância social entre os EUA e a África. Conseguimos entender as relações de mercado, embaixada e principalmente o preconceito social com aqueles que "vem de fora". A realidade é: quase que impossível se tornar um cidadão americano. As oportunidades de emprego são baixas para estrangeiros. Se você procura um cargo no alto escalão americano, pode desistir. São poucos os que conseguem chegar tão alto quanto.

O sonho instituído pela "pátria" americana para se obter um Green Card requer muito esforço. Ao reler alguns contos deu para perceber a humilhação que esses personagens passaram. No seu pescoço não apenas fala de personagens vítimas, pelo contrário, ele lida com uma nação e pessoas dela que criam coragem para sair de suas origens em busca de algo melhor. 

Todo o enredo é permeado por essas reflexões. Ora leves ora agressivos. A diagramação, capa e revisão estão bem elaboradas. Não seria para menos! Esperar todos esses anos por um material que lide não apenas com o conteúdo, mas com a qualidade.


A obra se volta para um público adulto como também estudiosos que desejam conhecer sobre a cultura Nigeriana, e também temáticas que lidem com o social. As informações contidas no livro não foram feitas para ficar nele, mas precisam de uma disseminação geral. Outros precisam conhecer. Você precisa conhecer um pouco mais sobre este tipo de conteúdo.

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6 comentários:

  1. Já perdi as contas de quantas resenhas que li deste livro e não vejo a hora de poder mergulhar neste universo de história e de um bom tapa na cara de toda uma sociedade.
    Mais do que trazer contos e críticas, este livro traz toda a história de um povo, sua cultura, suas perdas e ganhos.
    O livro está sendo muito bem recomendado e lerei em breve!
    Beijo

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  2. Achei muito massa esse livro aborda sobre o povo e a cultura Negra muito interessante mesmo essa capa é simplesmente incrível Eu pretendo realmente começar e terminar essa leitura ainda esse ano

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  3. Olá Amanda,
    Sou muito curiosa para ler títulos desta autora. Neste ano, li "Para educar crianças feministas" e achei ótimo.
    Neste livro de contos, os temas tratados são todos muito pertinentes e polêmicos, tópicos que geram discussão e conflitos e que devemos cada vez mais nos aprofundar e conhecer.
    Muito interessante o fato de o livro lidar com nosso medo e preconceito em relação ao que nos é desconhecido, a leitura se torna uma forma de entendimento e aceitação do que nos é diferentes. A questão racial e a integração do imigrante são temas que nos fazem refletir e nos tornarmos pessoas melhores.
    Confesso que achei que o livro fosse lançamento não só no Brasil, não sabia que foi publicado originalmente em 2009. De qualquer forma, as questões que ele mostra são cada vez mais atuais!

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  4. Amanda!
    Não li ainda nenhum dos livros da autora, mas sempre leio as resenhas e os livros dela trazem sempre polêmicas relevantes e mostra o quanto as realidades são diferentes e crueis.
    O melhor de tudo é poder trazer uma escrita mais culta, porém não menos verdadeira, mostrando a realidade africana e a crueldade por lá.
    Fantástico!
    Um Novo Ano repleto de realizações!!
    “Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.” (Carlos Drummond de Andrade)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA dezembro 3 livros + 2 Kits papelaria, 4 ganhadores, participem!

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  5. Olá Amanda ;)
    Quero MUITO ler um livro da autora em 2018, está na minha meta. Só ouço falar bem da escrita dela, mas ainda não consegui encaixar na meta de leitura nenhum de seus livros.
    Quero começar por Para Educar Crianças Feministas, que consegui o ebook na Amazon.
    Não sou muito fã de livro de contos, mas depois de ler algumas resenhas de No Seu Pescoço me interessei demais em fazer a leitura dele.
    Adoro essa representatividade que a Chimamanda parece trazer nos livros dela, e espero me envolver totalmente em sua escrita magnífica *-*
    Já quero ler Americanah também kkkk outro para a lista!
    Bjos

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  6. Sou fã da Chimamanda desde que li Americanah, desde então já li quase todos os livros da autora. Não tem como não se apaixonar pela escrita dela e se sentir engrandecida por todos os ensinamentos que ela passa, toda a empatia que ela transmite, toda a atenção que ela dá para temas tão sensíveis e tão cruéis. Quero muito ler No Seu Pescoço, inclusive foi um dos últimos livros que comprei mas ainda não pude ler. Pretendo fazer isso o mais rápido possível. Fico muito feliz de saber que a leitura foi tão boa, parece que mais uma vez ela acertou em cheio!
    Beijos.

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