27 fevereiro 2017

Resenha - Atlas de Nuvens


Titulo: Atlas de Nuvens
Autor: David Mitchell
Cortesia: Cia das Letras
Skoob / Goodreads
Páginas: 544
Onde comprar: Amazon

Um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma «criada de restaurante» geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização: são os narradores de "Atlas de Nuvens", que escutam os ecos uns dos outros através dos corredores da história e vêem os seus destinos alterados de várias maneiras.
Neste que é um dos romances mais importantes da atualidade, David Mitchell combina o gosto pela aventura, o amor pelo quebra-cabeça nabokoviano e o talento para a especulação filosófica e científica na linha de Umberto Eco, Haruki Murakami e Philip K. Dick. Conduzindo o leitor por seis histórias que se conectam no tempo e no espaço — do século XIX no Pacífico ao futuro pós-apocalíptico e tribal no Havaí — Mitchell criou um jogo de matrioskas que explora com maestria questões fundamentais de realidade e identidade.'









Preciso começar dizendo que este foi um dos livros mais marcantes que eu já li na minha vida, dizer que eu amei não é suficiente. Atlas de Nuvens foi publicado em 2004, recebeu vários prêmios e já é considerado um clássico contemporâneo. Ano passado a Companhia das Letras o trouxe para o Brasil em uma edição digna da magnitude desta obra (que eu vou dar mais detalhes depois) e agora eu estou aqui para falar um pouquinho dela para vocês!

Bom, o Atlas de Nuvens é composto de seis histórias que se passam em diferentes épocas entre passado e futuro, o que basicamente significa que nós temos um recorte temporal gigante, desde um retrato do período da escravidão até o que eu chamaria de cenário pós-futurista. Cada uma possui seu próprio protagonista e por mais que sejam independentes, tem vários detalhes que as unem, alguns mais explícitos e outros subentendidos.

Uma das coisas mais legais na estrutura do livro é que as histórias são organizadas em ordem cronológica e interrompidas na metade para dar início à próxima até que todas sejam apresentadas; depois elas voltam na ordem contrária até o livro ser finalizado pela história que o iniciou. Eu marquei na parte de cima do livro onde começa e onde retorna cada uma com uma cor diferente. Na foto abaixo dá para ter uma ideia visual dessa estrutura crescente e decrescente (e da quantidade de marcações que eu fiz!).


Diário de viagem ao Pacífico de Adam Ewing: como o próprio nome indica, é em formato de diário; aqui acompanhamos a viagem de Ewing, um tabelião americano, pelas Ilhas Chatham a bordo do Prophetess em 1849, onde ele conhece (oportunamente) o médico Henry Goose que o trata de uma doença grave causada por um verme e Autua, um escravo moriori que embarca clandestinamente no navio.

Cartas de Zedelghem: é um conjunto de cartas de Robert Frobisher, um músico inglês, enviadas ao seu amigo e amante, Rufus Sixsmith, em 1931. Nas cartas, Robert narra sua estadia na casa do compositor inglês, Vyvyan Ayrs, que o contrata para ajudá-lo a compor devido a sua doença. Durante seu tempo na Bélgica, Robert compõe o Sexteto Atlas de Nuvens, que eu diria resumir a obra do Mitchell inteira.

Passei essas duas semanas na sala de música, retrabalhando fragmentos do último ano num “sexteto para solistas sobrepostos”: piano, clarinete, violoncelo, flauta, oboé e violino, cada um com seu próprio idioma de tonalidade, escala e cor. Na primeira parte, cada solo é interrompido por seu sucessor; na segunda, cada interrupção é retomada, na ordem original.

Meias-vidas – O primeiro romance policial da série Luisa Rey: narrado com pequenos capítulos em terceira pessoa, conta a história da jornalista Luisa Rey que após ficar acidentalmente presa no elevador com o físico Dr. Sixsmith em 1975, se vê em uma perigosa investigação de um possível escândalo da Seaboard Power Inc., empresa responsável pelo desenvolvimento de energia nuclear financiada pelo governo.

O pavoroso calvário de Timothy Cavendish: no século XXI, o editor Timothy Cavendish narra a própria história de como ele acabou preso em um asilo, por seu irmão, após pedir ajuda para pagar uma dívida cobrada pelos irmãos de um de seus autores, Dermot, que foi preso por jogar um crítico literário de um prédio, tornando o seu livro um sucesso.

Uma rogativa de Sonmi~451: em formato de interrogatório, se passa em um futuro distópico dominado pelo consumo; aqui conhecemos a história de Sonmi~451, um clone criado exclusivamente para trabalhar em uma franquia de fast-food chamada Papa Song Cop, mas que teve sua vida mudada completamente ao "ascender" e se juntar a um grupo terrorista que atua contra o regime totalitário.

O vau do Sloosha e o que deu adespois: no cenário pós-futurista que eu mencionei no início, conta a história dos sobreviventes da “Queda”, um evento que destruiu o modo de vida que conhecemos na história anterior e dizimou a maior parte da população, restando apenas algumas tribos pelo mundo. O protagonista é Zachry, um camponês que recebe em sua casa a visita de Meronym, uma integrante do grupo que ainda possui resquícios da tecnologia e faz comércio com a tribo de Zachry.




[ - Minhas Impressões - ]

Tentei contar um pouquinho das histórias para vocês não ficarem perdidos. Individualmente falando, elas têm características próprias muito bem trabalhadas, o autor realmente conseguiu dar uma voz independente para cada uma, utilizando-se de várias técnicas diferentes para expressar diferentes épocas, mas vou dizer que a cereja do livro mesmo é analisar o conjunto todo. Melhor irmos por partes!

Existe um filme baseado no Atlas de Nuvens, aqui ele recebe o nome de A Viagem (vou deixar o trailer no final para quem quiser conferir). Como eu já tinha assistido antes do livro ser lançado no Brasil, vou falar um pouquinho da influência do filme na minha experiência de leitura também.

Em relação às histórias, eu me apeguei muito mais ao diário, às cartas e ao vau no filme do que no livro, que eu me envolvi mais na leitura do romance policial, do calvário e da rogativa, provavelmente porque o filme traz mais dinamismo para aquelas histórias que são um pouquinho arrastadas no livro, levando em conta também que no filme nós podemos ouvir o Sexteto do Robert.


Outra coisa boa em relação ao filme é ter o recurso visual dos cenários, especialmente das duas histórias que se passam no futuro. Na rogativa de Sonmi-451, por exemplo, pode ser mais complicado entender exatamente como eram as tecnologias ou o que são alguns termos que ela usa sem ver exatamente do que ela está falando, não é nenhum bicho de sete cabeças, mas o filme me ajudou muito neste quesito. Apesar dele conseguir explorar bem a obra, o filme não possui nem de perto a profundidade que o livro tem.

Ainda falando sobre a Sonmi, eu adorei o futuro regido pelo consumo que o Mitchell criou como crítica à sociedade atual. Na história, até as coisas recebem os nomes das marcas como se ao invés de falarmos tênis/calçado, nos referiríamos a eles como “nikes”. E na história seguinte do Zachry em que a sociedade tecnológica se autodestruiu e a solução foi retornar a uma vida “primitiva”, chega a ser assustador pensar no quanto esse futuro pode ser realmente possível.

É muito legal ir percebendo como as histórias vão se conectando ao longo da leitura. O autor traz inúmeras reflexões sobre a humanidade, a sociedade como um todo, as pessoas em si, de uma forma tão discreta que quando você vê, já está pensando sobre isso porque o nosso personagem está pensando. Não é aquela crítica solta que aparece do nada, ela vem da própria situação dos personagens.

Atlas de Nuvens é um livro diferente de tudo o que se pode ler por aí. Admito que não é uma leitura fácil, não é algo que você vai pegar e ler em uma tarde, é preciso ter calma, saborear as histórias. Terminei sentindo que eu poderia estudá-lo a vida inteira e ainda não descobrir todos os segredos que ele tem. É um livro que eu com certeza colocaria na lista dos “livros que você não pode morrer sem ler”


Sobre a edição da Companhia das Letras eu só tenho elogios, a edição é composta por um box maravilhoso (e resistente) que protege o livro. A capa do livro tem a partitura do Sexteto Atlas de Nuvens e não tem o nome na frente, só na lombada. Dei uma olhada nas edições estrangeiras e posso afirmar que nós temos a versão mais bonita do livro (quero dormir abraçada com ela de tão linda, olha essa capa!), além de um trabalho de tradução impecável do Paulo Henriques Britto. Espero muito que vocês possam lê-lo um dia, é incrível. E aqui está o trailer que eu prometi:



17 comentários:

  1. Confesso que não me sentiria atraído pela capa e nem pela sinopse. A capa não me chamou muita a atenção e achei a sinopse um pouco confusa, mas sua resenha me ajudou bastante a tirar minha dúvidas e me colocar no caminho certo. O livro parece ter uma história realmente marcante, o fato de conter mais de um protagonista e que algo semelhante os unem é bem curioso. Acho que daria uma oportunidade para essa obra, o assunto trato me chamou a atenção e a organização dita na resenha parece ser bem construída.

    → desencaixados.com

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  2. Oi, tudo bom?
    Gente, como eu nunca ouvi falar dessa obra prima?
    A capa é linda, e eu AMO histórias que se ligam por detalhes que se você não perceber, acaba perdendo. Parece simplesmente perfeito, já está na minha lista de leituras!

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  3. Uau... Que livro incrível. Adoro distopias, mas esse parece que vai além de tudo que já li, pois conta histórias relacionadas com o presente e passado também. Fiquei babando com o trailer e com certeza já marquei os dois no Skoob e no Filmow para não esquecer hehe
    Resenha maravilhosa
    :* Beijão!

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  4. Oi Lu..... eu fiquei toda perdida, confesso. Mas se um autor tem a capacidade de fazer recortes no tempo e escrever diversos gêneros e ainda fazer a história conectar, com certeza merece ser agraciado com prêmios. A edição está linda e as histórias são interessantes, sendo que a que mais me cativou foi a dos diários. Não conhecia a obra, mas com certeza deve valer a leitura, já que vc marcou como favorito e é um dos melhores livros Da vida.... tá aí o por quê de tantas marcações! Obrigada pela fica! Acho que meu marido vai amar a leitura.. .. eh mais o estilo dele. 😀

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  5. Olá!! :)

    Eu confesso que não conhecia este livro mas deixaste-me com alguma curiosidade!! :) Gostei de ler a tua opinião, e já vi o trailer!

    Bem, talvez leia... De qualquer das formas, acho ótimo que tenhas gostado e que cada historia possa ser saboreada! E que se liguem umas com as outras!!

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  6. Se eu fosse me basear apenas pela sinopse, não sentiria nenhuma vontade de ler a obra. Mas sua resenha ficou tão bem detalhada e mostrou o quanto você gostou da leitura, que confesso que fiquei com muita vontade de ler. Sua resenha ficou perfeita, Luana, sério. Adoro tramas que vão e voltam, pode parecer confuso, mas eu acho que deixa a leitura mais dinâmica, pois se você não gosta de alguma parte, logo vai para outra. Achei a edição linda mesmo.
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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  7. Olá!
    Não conhecia este livro, mas achei muito interessante a proposta, principalmente quando citou que as historias são organizadas em ordem cronológicas e são interrompidas pela metade para juntar-sem no final. Adorei!
    Anotado a dica!
    Abs
    Ni
    Cia doLeitor

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  8. Não conhecia o livro e achei muito interessante a forma como as histórias foram desenvolvidas e depois unidas. Só pela curiosidade que me despertou este quesito eu já teria. Não sabia do filme também, e vou dar uma procurada para poder ver.
    Bjs

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  9. Oie
    parece realmente ser uma leitura interessante e complexa que vale a pena, eu gostei muito dessa edição e vou anotar a dica pois o enredo está incrivel e ainda não conhecia o livro

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  10. Olha, eu realmente não gosto muito de histórias que começam e não terminam e já inicia uma outra história... porque eu realmente iria acabar chegando para ler o final da primeira história e não lembraria mais dos detalhes... Mas o fato de você ter falado que isso é feito para juntar-se ao final achei interessante e que pode funcionar de uma forma que até então eu não havia pensado. Acho que realmente tem que ter algo bem especial nas histórias e fiquei curiosa para descobrir, não sei se eu faria no momento, mas é uma obra a se manter em mente!
    Um beijo
    www.brookebells.com

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  11. Oi.
    Eu ainda não tinha lido nada sobre o livro ou mesmo o filme. Então não conhecia.
    Realmente o autor deve ser genial para conseguir desenvolver tantas histórias em paralelo. De fato não deve ser um livro para ler em uma tarde. Sinceramente não sei se me interessaria pelo enredo em si, mas como te tocou tanto a ponto de você acrescentar à lista dos livros que devem ser lidos antes de morrer, vou acrescentar à lita.
    Beijos.

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  12. Olá Lu,
    Ainda não conhecia esse livro, mas achei a premissa dele bem interessante, confesso.
    Gostei das histórias, pois elas parecem ser bem boas, também achei interessante essa questão da conexão que elas tem e me pergunto como isso acontece. Como adoro livros que tem histórias distintas e que se interligam, fica impossível não anotar essa dica.
    Beijos

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  13. Olha, fico muito feliz que você tenha amado tanto assim, que tenha considerado um dos livros mais marcantes que leu na vida mas, sinceramente, ele não me atraiu. Ao contrário de você, não gostei da capa, e a sinopse também não chamou a minha atenção. O que achei legal que você disse na resenha foi isso de interromper as histórias na metade e depois retomá-las na ordem inversa, acho legal quando um livro tem uma estrutura diferente, mas isso não é o suficiente para eu querer ler.

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  14. Olá!
    Ainda não conhecia essa obra, mas achei simplesmente genial, e entendo perfeitamente porque já está sendo considerado um clássico contemporâneo. Espero um dia poder ter a oportunidade de ler e conseguir degustar todas as histórias de maneira devagar, igual você fez. Sua resenha ficou sensacional.
    Beijos.

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  15. Olá!
    Pela capa e pelo título não teria dado a oportunidade a este livro, mas o enredo e como foi escrito o livro me deixaram curiosa e instigada a dar uma chance a ele.
    Dica anotada.
    Bjs

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  16. Oi, luh, eu tenho esse livro na minha lista de futuros livros a serem lidos, mas me dá até certo medinho de ler, por toda a complexidade que ele ns apresenta. Gosto dessas obras que trazem boas reflexões sobre a humanidade, mas ao mesmo tempo que achei aqui incrível a disposiçãodessas seis histórias, também achei que pode ser difícil de acompanhar. Ficará aqui para alguma hora que eu esteja bastante inspirada.

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  17. Não tem como não amar esse livro! Sério, é a mais doce confusão que já li em minha vida, até agora.

    Comigo foi a mesma coisa filmexlivro. Ver a realidade da Somni ajudou muito, uma vez que eu ficava boiando naquelas tecnologias... O Zachry foi um dos meus personagens preferidos em ambos, mas não gostei das mudanças nas histórias que aconteceram. Como você, acredito que esse não é um livro para se ler em um dia, talvez nem em uma semana. Para absorver tudo o que o narrador transmite, serão necessárias muitas horas de reflexão, para encontrar todas as similaridades entre as épocas.

    E amei o Sexteto <3

    Abraços!
    www.asmeninasqueleemlivros.com

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