14 novembro 2023

Resenha: O Despertar da Roseira



O Despertar da Roseira é um livro de poesias profundas, delicadas e, por conseguinte, cheio de reflexão. E através dos versos que compõe os textos que o autor Fernando Latorraca leva o leitor a vivenciar momentos de puro deleite com as mensagens implícitas em suas poesias. 

O livro é dividido em partes, sendo "Prelúdio" o início, com a poesia "A Palavra" que antecede a primeira parte do livro e traz a esperança como sua principal estrela. Partimos então para a primeira parte, com "Rosas Cor de Nuvens" que conta com cinco poesias, sendo elas: "Mensagem", "Encontro", "Nascimento", "Comunidade" e "Tarefa", nos quais o autor chama atenção para alguns sentimentos e vivências que estamos sujeitos a nos deparar no dia a dia e ao longo da vida, como, sofrimento, perseverança, resiliência e coragem.

A parte II denominada por "Rosas Cor de Sol" também é composta por cinco poesias, e são elas: "A Marca", "União", "Revelação", "Grades" e "Pão" que aborda temas como, mudanças, ciclos que se fecham para que outros comecem, fala também sobre a vida, que pulsa e clama que a vivamos com intensidade e urgência, fala sobre o futuro e o amor, capaz de unir e transformar, fala de realização de sonhos e de se desprender daquilo que nos mantém no mesmo lugar e nos impede de tentar e ir além.


Grades

Vejo as grades da janela
E a luz que ultrapassa as frestas
Respiro fundo
O ar capaz de me encher o corpo
Em devoção engasgo
Com a água que sorvo, apressado

O que desejo é isto
O confronto, o susto, o choque

Com a luz que chega até mim
E me revela os limites

De tudo que há por aqui
Os limites duros da pedra estática

E, no entanto, sobre a mesma pedra, quente,
Queimamo-nos em vida

Difícil é enxergar
Sem ser tragado e consumido

Há uma força a mover o mundo
E outra a nos mover os sonhos

Mas é num sonho vivo
Que podemos deitar os olhos

Olhar a face definitiva, brilhante,
Do que poderíamos ser

E ali, através da janela,
Reside o portal que buscamos


A parte III "Rosas Cor de Tempestade" apresenta, também, cinco poesias: "Amargor", "Sob Ataque", "Humilhação", "O Fardo" e "Passagem", pontuando questões como o tempo, dores, feridas e abandono. A parte IV "Rosas Cor de Aurora" traz as seguintes poesias: "Triunfo", "Ascendente", "Sol de Despertar", "Roseira" e "Rainha", no qual o tempo se faz mais uma vez presente, sob um novo contexto e, por fim, chegamos ao final com "Desfecho - Uma Lembrança", com a poesia "Senhora", que amarra muito bem o livro e fala sobre gratidão.


[- Minhas impressões -]

As poesias, assim como a escrita do autor proporcionaram a mim momentos de pura satisfação e alegria, pois mergulhei profundamente em cada uma delas, me envolvendo completamente com cada sentimento e emoção despertada pela leitura, e para mim foi uma experiência extremamente prazerosa que tive com a leitura de O Despertar da Roseira.
 

O livro é super rápido de ler, por isso aconselho que seja lido como merece, apreciando uma após outra, absorvendo suas mensagens e os sentimentos incutidos em cada uma delas que não são poucos, já vou avisando.

Em cada uma das partes elegi a poesia de que mais gostei, e "Grades" foi uma delas, por isso eu a trouxe para compor a resenha, pois acredito que simbolize de forma eloquente o quanto gostei da mesma e do livro em si.
 

Sou uma grande apreciadora de poesias e toda vez que tenho oportunidade de ler um livro do gênero, sinto-me uma felizarda e procuro absorver o máximo de cada uma e espero que o meu entendimento sobre essas, especificamente, tenham se aproximado bastante das mensagens que o autor quis passar, pois não se trata somente de textos poéticos que possuem estética e beleza, vai muito além disso pode acreditar, por isso, para quem tem o costume de ler sabe muito bem o que quero dizer.

Gostei imensamente da leitura e da escrita do autor e espero ansiosa por mais leituras de outras obras suas o quanto antes, e deixo aqui o convite para os amantes de poesias conhecerem o belo trabalho do Fernando Latorraca.                              

01 novembro 2023

Resenha - Troncos e Barrancos



O livro conta a história de Anahí, uma jovem totalmente oprimida por um pai tirânico, moralista e agressivo, que não permite que as mulheres da casa tenham voz e muito menos expressem seus sentimentos. Criada em um lar violento, com uma mãe submissa e um irmão mais novo seguindo os passos do pai, a jovem protagonista não tem muitas perspectivas de felicidade até que ela conhece Zion, o belo e jovem mágico do circo que está se apresentando em sua cidade e os olhares de ambos se atraem quando Anahí é convidada a participar de um número por ser considerada a moça mais bonita presente ao espetáculo. 
Desse dia em diante eles se aproximam cada vez mais e acabam se apaixonando perdidamente, passando a se encontrar escondidos do pai de Anahí.


"Os encantos pela aprazível felicidade que invadia a vida de Anahí, de vez em quando, eram tomados por pressentimentos de profunda tristeza. O medo consciente de mais cedo ou mais tarde ter que despertar da história de amor que estava vivenciando, ameaçada pela inabilidade em esconder suas emoções, levava Anahí a sabotar seus pensamentos dominados por Zion."


Os encontros sempre às escondidas é descoberto por Itagiba, pai de Anahí, que a proíbe de voltar a se encontrar novamente com Zion por considerá-lo um vagabundo, só porque ele é artista de circo e não tem dinheiro, escancarando todo seu preconceito e sua total falta de preocupação com os sentimentos da filha.
 

"--Você está enfeitiçada por esse cafajeste. Está proibida de encontrar esse sujeito -- bradou Itagiba colérico."


A história familiar de Zion e Anahí se assemelha na violência e agressividade proveniente de seus lares, todavia, Zion teve a mãe covardemente assassinada pelo padrasto alcoólatra, deixando-o órfão juntamente com seus dois irmãos mais novos.


"Não fosse a cegueira e fraqueza da paixão, ela não teria sido assassinada na minha frente. Escapamos vivos por ele estar embriagado."


O casal apaixonado é separado da pior maneira possível, pois assim como aconteceu com sua mãe, Zion é covardemente assassinado na noite do seu aniversário por Zé Maria, dono do bar da cidade sem que ninguém saiba o motivo de tal crime. Desolada com a morte de seu grande amor, Anahí é expulsa de casa pelo pai após ele ficar sabendo que ela está grávida e acaba indo viver com Araçá, sua avó paterna na humilde casa do sítio Bacurizeiro. 

O tempo passa, Anahí faz amizade com Solange e Josefina e nasce seu filho com Zion, que recebe o mesmo nome do pai. Vivendo há anos no sítio, Anahí é convidada por Josefina a trabalhar na fazenda Boqueirão e seus caminhos se cruzam com Inácio, o dono da casa e mandachuva da região, a quem todos obedecem sem pestanejar, inclusive o pai e o tio de Anahí, que acabam armando um plano para separá-la do filho e obrigá-la a se tornar amante do patrão. Só que as coisas não saem totalmente como o planejado, embora o destino de Anahí já tenha sido selado. 

Em paralelo a história de Anahí crimes ambientais estão sendo cometidos com a derrubada de inúmeras árvores a mando de Inácio, chamando a atenção da polícia ambiental, que por sua vez acaba se envolvendo na triste história de Anahí e seu filho.

 
[- Minhas impressões -]

Intensa e arrebatadora são palavras que definem bem a leitura desse livro que possui um enredo forte, impactante e até mesmo cruel em alguns momentos, e por isso mesmo tão realista. 

A história de Anahí com um pai violento e extremamente machista e uma mãe oprimida, submissa e vítima constante de agressão física e psicológica, embora se passe em uma época distante percebe-se que em muito se assemelha com os tempos de hoje, pois mesmo com o passar dos anos e com as mudanças que ocorreram ao longo do tempo, infelizmente ainda existem milhares de mulheres sofrendo violência e sendo tratadas como mercadoria ou um pedaço de carne por seus cônjuges e parceiros em pleno século XXI. 

A autora Luiza Medeiros abordou o tema sem dourar a pílula e mostrou a realidade dessas mulheres retratada na história de Anahí, Justina, Solange e Josefina, personagens fictícios de sua obra. A história de amor de Zion e Anahí é linda, extremamente tocante e impossível de a gente não se emocionar e se sensibilizar com tudo o que lhes acontece, principalmente pela maneira brutal com que eles são separados, sem que Zion tenha a menor chance de se defender. 

 A escrita da autora salta aos olhos e nos faz cativos de uma narrativa fluída que desperta no leitor o sentimento de inconformismo e choque por saber que a ficção muitas das vezes conta a realidade tal como ela é, o que com que seja difícil de digerir.

O crime ambiental é outra realidade muito bem contextualizada na história e que só fez somar à obra, contribuindo ainda mais para o clima de ação e perigo na trama, chamando atenção para uma prática totalmente criminosa e infelizmente muito comum nas florestas brasileiras, principalmente no norte do país. 

Ler Troncos e Barrancos é a certeza de que vamos nos deparar com situações que prometem sacudir-nos e tirarmo-nos totalmente de nossa zona de conforto, mas que faz-se extremamente necessário, pois trata-se de uma obra que ficará marcada por um longo período em nossas memórias, ou até mesmo permanentemente porque conteúdo é o que não lhe falta e eu convido você a conhecê-la duvido você não se encantar por ela como eu. Uma leitura mais do que recomendada!

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