11 setembro 2018

Observatório Literário #24 - Será que vale mesmo a pena ler de tudo?



Recentemente me deparei com uma leitura polêmica e que retrata diversos assuntos relacionados com o nosso dia-a-dia de leitor: Ler de Tudo. Preparados para uma conversa bem longa? Pois pegue seu café e por favor continue comigo nessa reflexão coletiva que eu quero propor a vocês!



Apesar de eu não ser graduado em letras, hora ou outra eu me deparo com livros mais técnicos a respeito de literatura e, um desses em especial me chamou a atenção: A Arte de Escrever, de Arthur Schopenhauer. O livro é uma antologia de ensaios escritos por esse pensador do século 19 que critica ferozmente e com muito sarcasmo o mundo em que mais gostamos de viver: o da leitura.

Isso mesmo, Schopenhauer distribui tapas na nossa cara a respeito de nós leitores com paixão pela leitura. E não os leitores casuais, mas sim aqueles que leem como um hábito, aqueles que leem qualquer coisa que veem pela frente, até bula de remédio e rótulo de xampu! 


“Desse modo, o excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade, da mesma maneira que pressão contínua tira a elasticidade de uma mola. O meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro na mão a cada minuto livre.”

Pois é isso mesmo que ele fala, contra a corrente de todos que dizem que a leitura é algo bom e deve ser incentivada, nosso amigo Schopenhauer aqui diz exatamente o contrário, que a leitura desestimula o pensamento próprio. E ele vai mais além...


“Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa. Em comparação com os pensamentos próprios que se desenvolvem em nós, os alheios, lidos, têm uma relação como a que existe entre um fóssil de uma planta pré-histórica e as plantas que florescem na primavera. ”

Essas analogias feitas por Schopenhauer nos fazem refletir: será mesmo que ao lermos em excesso principalmente obras muito similares, somos diretamente influenciados a agir e pensar exatamente como o autor e estamos extinguindo em nós a capacidade de pensarmos por nós mesmos? Fica aí essa reflexão.


Além disso, ele traz diversas outras questões. Ele critica aqueles que por lerem muito acabam que acumulando uma grande quantidade de conhecimento, no caso, aqui ele se volta principalmente para literatura mais cientifica ou acadêmica. Segundo ele, tem muito mais valor aquele que adquire uma quantidade limitada de conhecimento por investigação própria do que aquele que acumula muito por meio de leitura. Louco né?

O que me chamou atenção e me fez pensar bastante após ler esses ensaios é esta forma extremamente contrária de pensamento. Estamos muito acostumados a pensar exatamente o oposto do que Schopenhauer nos propõe. E isso abre muitas possibilidades de reflexão. É claro que eu não concordo 100% com o que ele fala, principalmente por que por natureza são poucos os que têm a capacidade de serem autodidatas.  

Schopenhauer se esquece que a maioria das pessoas inclusive ele próprio precisa de referências para conseguir pensar sobre qualquer tipo de assunto. Ninguém nasce sabendo de tudo e vai conseguir raciocinar por conta própria tudo o que existe na vida. Acredito que devemos ficar felizes em aprender, e a leitura na minha opinião é uma ferramenta poderosíssima nesse objetivo. Um pouco hipócrita da sua parte não é mesmo Senhor Schopenhauer?!

Mas voltando a crítica dele, Schopenhauer agora nos dá uma opinião sobre os escritores.

“Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos, ou fizeram experiências, que lhes parecem dignos de ser comunicados; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem, só por dinheiro. Assim que alguém percebe isso deve jogar fora o livro, pois o tempo é precioso”

Após ter lido esse trecho, a primeira coisa que me veio à cabeça sem dúvida foi essa história de livros e até mesmo filmes que possuem sagas intermináveis, que eu pelo menos não deixo de enxergar como sendo um meio de conforto para o autor secar a fonte até o máximo que conseguir, sem se dar ao trabalho de começar uma história original. É claro que isso é muito relativo. 

Ás vezes uma história necessita de tempo, aprofundamento, desenvolvimento e isso demanda mesmo vários volumes. Mas convenhamos que existem certos autores ou até mesmo executivos e roteiristas de filmes que esticam tanto, mas tanto uma história, que ela caba cheia de rebarbas e furos. É só pensar também em uma série quando faz sucesso: os produtores querem ganhar tanto com aquilo que as temporadas finais quase sempre nunca terminam com a mesma qualidade com a que começou. E é claro gente que apesar de eu estar generalizando nesse ponto há exceções. Mas há de se pensar nisso.


Outro ponto bem interessante abordado por Schopenhauer é o fato da renovação de algumas histórias e assuntos.

“Já ocorreu muitas vezes de um livro anterior ser substituído por novos, piores, escritos apenas para ganhar dinheiro, mas que surgem com aspirações pretensiosas e são louvados pelos camaradas dos autores. ”

Trazendo isso para nossos dias atuais, eu não deixei de pensar nos famosos “remakes”. Eu pelo menos acho muito raro um deles que funcionou. Ultimamente quantas e quantas histórias antigas já não foram “atualizadas” e simplesmente não funcionaram e perderam toda a qualidade original? Mas isso também eu não deixo de pensar se não é uma implicância minha ou se não se trata simplesmente de um conflito de gerações. Por exemplo, eu sempre falo que os desenhos animados que eu assistia quando criança são inegavelmente melhores dos que os que passam atualmente. Tá, Ok acredito que muitas pessoas vão concordar comigo. Mas aí eu fico pensando também: será que meus pais também não pensavam exatamente o mesmo que eu quando eu assistia na minha época os meus desenhos? Que os da época dele eram melhores? Fica aí a reflexão também!

Nosso querido amigo Schopenhauer não termina por aí não: ele agora nos faz pensar na falta de criatividade e reaproveitamento daquilo que já deu certo uma vez.

“[...]os piores são os títulos roubados, isto é, aqueles que já pertencem a um outro livro, pois se trata não só de um plágio, como também uma comprovação ostensiva da falta de originalidade. ”

E pessoal ao acabar de ler este trecho eu não pude deixar de pensar nos inúmeros livros que saem hoje em dia com os seguintes títulos: A menina que...., A garota que.... O menino que..., O garoto que.... e as suas diversas variações. Não que eu queira ser chato, mas só isso já me afasta imediatamente do livro. É uma forma de preconceito? Claro que é, mas é que eu já tive experiências tão negativas com alguns destes títulos que para mim todos eles seguem a mesma linha de qualidade, e eu acabo que por fugir deles. Fico pensando que se a história fosse a mesma, porém com um título mais original, se eu não me interessaria mais. 


“Outro golpe pior e ainda mais maldoso foi dado pelos literatos, pelos escritores prolixos que fazem da literatura seu ganha pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o mundo elegante na coleira, tornando-o adestrado a ler no momento certo, isto é, fazerem todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de terem um assunto para conversar em seu círculo de amigos. Servem a esse objetivo os romances ruins e produtos semelhantes a penas antes renomadas.”

Tá aí, parece que Schopenhauer deu uma leve exagerada e quis dizer que nada que é produzido hoje em dia é digno de atenção. Mas....tenho que concordar com ele que as vezes, somos pegos por ondas vulgarmente conhecidas como modinhas no campo da literatura principalmente de ficção. Por exemplo: quem se lembra de Crepúsculo? Obvio que todo mundo né... Pensem bem, quantos livros de vampiros/lobisomens adolescentes que se apaixonam foram produzidos após a febre de Stephanie Meyer? E quantos dele realmente tinham uma qualidade no mínimo aceitável? Agora pensem em Jogos Vorazes, o que veio logo depois? Divergente, O Teste, e outras inúmeras distopias que quase sempre contavam a mesma história, mudando isso ou aquilo, e que perdia cada vez mais a aprovação dos leitores. Pensem mais um pouquinho: qual a onda que estamos vivendo atualmente? Muitos livros com essa mesma temática não estão sendo demandados por conta disso? Outra reflexão importantíssima.



O livro ainda traz muitas questões polêmicas e que nos fazem pensar. Mas se eu fosse expor aqui cada uma, esse texto iria ficar muito longo, e já esta!


Muitos já devem ter desistido de lerem antes mesmo do fim. Mas o que eu queria com ele, é deixar no ar diversas questões para pensarmos e analisarmos com calma. À primeira vista pode parecer muita arrogância dele nos insinuar tudo isso, mas eu pelo menos depois de pensar um pouco mais acabei incomodado com algumas questões que ele trouxe e isso não é algo ruim. Claro que eu não concordo com tudo o que ele fala, até mesmo por que acredito que a leitura não é obrigatoriamente algo para ser sempre colocado em um pedestal e ser intocado, afinal, todos nós precisamos de leitura para entretenimento também. Ninguém vive só de estudo e pensamento crítico. A vida seria extremamente chata se vivêssemos apenas para isso. Mas sempre vale a pena conhecer e refletir acerca de outras linhas de pensamento não é mesmo? Eu recomendo bastante a leitura deste livro pois ele é bem curtinho, e com certeza irá fomentar diversas questões para cada um. Vou deixar um link abaixo onde encontrar o livro!                                              
                                                                                                                                                    Amazon / Saraiva

Mas eu já falei demais. E vocês o que acham dessas questões? Será que devemos ser mais seletivos em nossas leituras para não acabarmos caindo na mesmice e perdermos tempo, ou será que  toda forma de conhecimento é válida, não importa qual? Concordam, discordam, deixem aí nos comentários a opinião de vocês, ela é muito importante para nós!!!



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6 comentários:

  1. Oi, Eduardo,

    Embora muitos leitores possam não concordar, esses questionamentos intrigam. Algumas coisas fazem sentido, contudo, não se é totalmente o suficiente para mudar minhas idealizações.

    Não se o que eu vou dizer se encaixa no que o quis dizer, mas me incomoda muito quando tá escrito na sinopse de um livro: "Para os fãs de..." "Se você leu Tal Livro vai gostar desse livro". Detesto isso, pois na minha mente, o livro vai ser uma cópia do livro citado, e eu desanimo por completo. Recentemente, li um livro que lembra "A Rainha Vermelha" - que foi um livro que não gostei muito -, e o final, foi como? Igual... Se o livro vai ser igual, ok, mas prefiro não ser avisada com antecedência e tomar um verdadeiro banho de água fria...

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  2. Puxa, nunca em minha vidinha iria imaginar que Schopenhauer havia escrito algo assim, colocado desta forma.
    Apesar de conhecer pouco da obra dele, sei lá o que pensar depois de toda essa explanação..rs
    Tipo, eu sou do time que acredita que tudo que lemos seja válido. Não importa gênero, autor, contexto, enredo. Desde que seja algo que gostemos e que mesmo que no fundo, não haja alguma identificação.
    Eu acredito no poder da leitura, apenas isso. E o gosto é de cada um.
    Mas sim, há essa repetição de temas, o que torna muitos gêneros maçantes. Como por exemplo, eróticos e os de vampiros. Há tempos não sai nada que seja um pouco diferente.
    Oh, vou ter que pensar mais um "cadim".rs
    Beijo

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  3. Oi Eduardo, tudo bem?
    Eu na verdade nem sei por onde começar a comentar sobre isso hahaha
    Eu preciso dizer que concordo em partes com o que o autor propôs. Primeiro,eu não concordo que ler muitos livros tiraria a nossa capacidade de pensar e de sermos criativos, justamente pelo fato de que a leitura tem exatamente o fato de nos fazer refletir sobre o que foi lido. E como você mesmo disse, para escrever, falar, sobre alguma coisa é necessário um conhecimento prévio e que só através da pesquisa e da leitura é que vamos consegui-lo.
    Com relação aos remakes, as "inspirações" que são criadas a partir de obras ja existentes, eu acho isso muito pessoal, porque uma obra original pode não me agradar tanto como um remake e vice versa, e para isso não tem regra.
    Achei bem interessante esses questionamentos, mas não posso concordar com tudo. Pensarei mais a respeito.
    Abraços

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  4. Olá Eduardo .
    Acredito que no século 19 o que Schopenhauer escreveu a respeito do assunto até fazia sentido. Com a evolução dos tempos e dos estudos quanto mais lermos mais saberemos.
    Concordo apenas na parte em que diz existirem apenas dois tipos de escritores, os que tiveram experiências e precisam escrever e os que querem dinheiro...que é o mais comum atualmente.
    Sobre os títulos de livros como "Fui a melhor amiga de Jane Austen" ,fujo.
    Acho ridículo tentar pegar carona em nomes consagrados da literatura, total falta de originalidade e caráter.
    Sobre os desenhos ..É claro que os antigos eram melhores haaaa.
    Abraços.

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  5. Olá! Vou confessar que no inicio, estava aqui preparada para defender que toda leitura é válida e sem dúvida soma de alguma forma no crescimento do leitor, afinal até mesmo um rótulo de shampoo pode ser esclarecedor (risos). Mas durante a leitura, tive que dar o braço a torcer e concordar com algumas colocações, afinal o que temos de continuações sem necessidade, sem contar livros com a mesma história, mas com pontos de vistas diferentes (sério, Brasil?), que visam sem dúvida dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. Claro que nós leitores gostamos quando aquele livro lindo que tanto nos encantou, e que aparentemente acabou, ganha uma continuação, mas em alguns casos me sinto enganada pelo que comprei e me vejo desejando que tivesse ficado no primeiro livro mesmo (bipolaridade?! talvez!), fora os vários e vários livros com a mesma essência que encontramos por aí. Em contrapartida temos também livros tendo propostas muito parecidas, que nos apresentam enredos completamente diferentes (eita lê lê), acredito que o mais importante é nos permitir, afinal só lendo é que vamos saber não é mesmo?!

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  6. Oi Eduardo!
    Gostei mto do seu post, há mtos temas repetitivos sim, até caem como clichês, mas leio msm assim... acho que qualquer leitura é válida.
    Bjs

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