16 outubro 2017

Resenha - Ninguém Nasce Herói

Título: Ninguém Nasce Herói
Autor: Eric Novello
Cortesia: Editora Cia das Letras / Editora Seguinte
Páginas: 384
Skoob / Goodreads 
Onde comprar: Amazon / Saraiva


Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer. Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo — e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.






  “Bastaria alguém e força de vontade. Bastaria dizer chega. O problema é que o 'basta' abre as portas para o desconhecido. E, hoje, o desconhecido causa medo.”

Em um futuro não especificado, mas assustadoramente próximo, o Brasil veio a se tornar uma ditadura fundamentalista através de um golpe em meio a uma crise econômica. Governando pela intolerância, o presidente assumiu o controle do país instituindo leis extremamente rígidas e politicas de tolerância zero. O preconceito que antes era tão combatido, agora passa a ser incentivado e espalhado através de uma policia rigorosa e guardas especiais instruídos a agir com crueldade. Repressão, militarização e controle ideológico sobre o que passa a ser veiculado passam a ser o preço pago para acabar com as minorias e melhorar o Brasil para “as pessoas do bem”.

“As propagandas nas paredes anunciam os supostos benefícios da nova onda de privatizações do governo. HOSPITAIS E ESCOLAS DE MAIS QUALIDADE PARA TODOS, dizem as letras amarelas. Só não dizem que “todos” seria esse.”

O resultado? São Paulo está como nunca vista antes, com seus asfaltos novos e ruas limpas ela veio a se tornar o sonho de muitos que jamais imaginaram vê-la dessa forma. No entanto, ao mesmo tempo em que sua beleza chama a atenção, a falta da tão característica diversidade pela qual o Brasil costumava ser conhecido vem se tornando cada vez mais escassos. Esqueça os sorrisos e o jeitinho brasileiro feliz e alegre de ser, o medo é o novo dono desse lugar onde não se é mais permitido a prática de religiões não cristãs, diversidade sexual e minorias étnicas. Enquanto o governo afirma que os direitos permanecem iguais, grupos de fanáticos estão pelas ruas perseguindo a diversidade com o apoio das autoridades e pasmem de grande parte da população.

“Numa época em que preconceitos antes velados são gritados com orgulho, não me espanta que tenha sido ele o eleito.”

No entanto, nem toda a população se conforma com coisas até então inofensivas - como se reunir com os amigos e até mesmo distribuir livros – venham a ser caracterizadas como atos de resistência. E é exatamente por isso que Chuvisco e seu grupo de amigos na media de vinte e poucos anos, vêm praticando atos pequenos de resistência de forma totalmente pacifica. Ajudando ONGs que estão a incentivar a leitura, eles distribuem livros considerados como proibidos pelo governo de forma a abrir a mente daqueles que vem no preconceito algo a se orgulhar. Jovens, eles possuem ideais fortes, assim como problemas característicos da juventude (amores, desencontros e o principal sua formação da identidade).

“Do jeito que o país vai, um livro de terror é um amigo mais sincero que um de auto ajuda.”

O que até então era feito de forma pacifica passa a adquirir um novo patamar, quando em uma cena infelizmente comum, Chuvisco se depara com A Guarda Branca a espancar um jovem rapaz bem na sua frente no meio da rua. Avaliando suas ações diante do acontecido, ele passa a enxergar em si a necessidade de fazer mais. Protestos pacíficos não estão a mudar a realidade que eles vêm enfrentando e nem irá permitir a liberdade para um povo cuja história é de grande sofrimento. Dispostos a mudar o país, eles passam a acentuar suas lutas.  Se envolvendo em grandes perigos, esses amigos irão enfrentar situações difíceis e de grandes riscos ao lutarem fortemente contra o governo. Com medo ou sem, desistir não é uma opção, afinal ser herói não é algo que foi feito para ser fácil, muito menos é algo que alguém já nasce para ser... Mas seriam eles capazes de mudar todo um governo?

“A verdade é que ninguém nasce herói. Mas isso não nos impede de salvar o mundo de vez em quando.”


[ - Minhas Impressões - ]

Ninguém Nasce Herói é definitivamente um livro a ser definido como forte com a sua abordagem acerca de um país onde não há a menor liberdade de expressão e onde o preconceito é tido como certo.  No entanto, o que mais o torna algo real não é a sua linguagem simples e nem os diversos problemas sociais apresentados em sua trama, e sim a possibilidade de que acabemos nos encaminhando para algo exatamente desse tipo ao observar as constantes ondas de conservadorismo inundando o Brasil e os diversos políticos extremistas que se tivessem oportunidade agiriam igual o eleito. Apresentando um importante papel de conscientização, Eric Novello utiliza-se de seu talento para nos ensinar através de seus personagens jovens a que façamos que nem eles e passemos a questionarmos e enxergarmos as coisas de outra forma mesmo que para isso tenha sido necessário utilizar-se de cenas de repleta repressão, tortura e censura que podem ser duras de ler, mas são necessárias para que se abram os olhos. 


Chuvisco é um personagem cativante desde o inicio; com sua forma “única” de ver o mundo o acompanhamos em seus surtos de imaginação – ou catarse criativa – onde sua imaginação mistura fantasia e realidade o fazendo ter duvidas acerca do que é real ou não. No entanto, mesmo vivendo nessa dualidade de realidades, isso não o atrapalha de ser o garoto revolucionário que se mostra desde o inicio, onde mesmo com o medo o cercando ele ainda continua a distribuir seus livros em praça pública pela simples vontade de dar à chance as outras pessoas de conhecerem o que foi censurado desde a tomada do poder por esse governo tirano. Com ideias revolucionarias e de esperança de um futuro melhor, acompanhamos através dele e de seus amigos essa juventude que tem em si o desejo de fazer diferente sem ligar para etnias, orientações sexuais e nem preconceitos acerca das vivencias que os fizeram se unir em meio a tempos de crueldade. Muito bem construído, esse é um personagem que se mostra real, um verdadeiro amigo – ao não querer arriscar a vida deles em suas incursões, ainda que a sua esteja em risco -, e determinado. De forma genial, Novello conseguiu dar características próprias a ele e inserir isso a uma narrativa que mesmo misturando fantasia e realidade em nenhum momento deixou de ser crível, mesmo sendo de conhecimento do leitor que faz parte apenas da mente desse personagem. 

Além do nosso protagonista, os personagens secundários também em nada deixam a desejar. Muito bem construídos, Amanda, Gabi, Pedro e Cael são presença constante durante a trama apresentando papeis essenciais para complementar uma história pensada até nos mínimos detalhes. Possuidores de conflitos internos, medos e bravuras, eles acabam por ganhar espaço para contar um pouco sobre as suas histórias e seu modo de vida. Tendo como base a amizade, são eles a força e a coragem necessária para que Chuvisco siga em frente e não desanime mesmo com muitos obstáculos pelo caminho. Muito bem trabalhado, cada ponto se interliga de forma única, trazendo aquela sensação de afago e cativando os leitores ao longo de sua obra. Mesmo sem ser algo fácil, Eric foi capaz de trazer a tona pontos essenciais através de um enredo que mistura aprendizado e história em suas paginas. 


Sua diagramação, assim como grande parte das obras da Editora Seguinte beira o impecável com o trabalho realizado. Com uma capa atraente que combina com seu enredo, uma boa revisão e um trabalho que mesmo simples se mostra coeso durante as páginas permitiu que o livro fluísse de forma que o tempo passasse de forma rápida, mesmo nas partes em que ela veio a se tornar – de certa forma – enfadonha. Uma fonte agradável e paginas amareladas são tudo que seus leitores poderiam desejar e foram atendidos. Em uma história repleta de tensão, esses pequenos cuidados dão o toque de leveza sem tirar a seriedade da obra fazendo toda a diferença. 

Essa definitivamente não é uma história que eu posso dizer que amei desde a primeira página, mas sua construção ao longo dos capítulos e pontos de vistas apresentados foram me fazendo descobrir coisas sobre mim e sobre a sociedade em que estamos inseridos de uma forma que me conquistou. Com pontos positivos e negativos ao longo de sua construção, nos sentimos em uma montanha russa de emoções que variam o tempo todo sem nunca parar em uma. Falando sobre um tema forte, e pouco conhecido – no quesito seriedade – para as gerações mais novas, essa acaba sendo uma obra impactante, original e um ensinamento de vida. Lidando com as facetas de alguém de forma natural, sem em nenhum momento se tornar algo forçado, Novello foi capaz de criar uma obra completa para todas as idades que fogem desse senso de apenas divertir com sua leitura ensinando ao mesmo tempo em que consegue entreter.


Ninguém Nasce Herói é uma obra que se torna difícil de ser definida ao apresentar uma distopia urbana que perturba ao mesmo tempo em que se mostra crível e necessária ao dias de hoje. Com metáforas e uma leveza que chega a surpreender diante do tema escolhido, Eric Novello foi capaz de mostrar seu talento ao inserir seus leitores dentro de um universo difícil de se enxergar, mas necessário para alertar sobre nossas próprias atitudes. Em tempos onde a intolerância se faz mais presente, um livro como esse é mais do que necessário, sendo um alerta para os caminhos que estamos trilhando e suas possíveis consequências. Leiam, se permitam conhecer mais sobre esse livro que fala sobre um cenário já vivido por muitos, e que pode voltar a acontecer se não decidirmos ser nossos próprios heróis!

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11 comentários:

  1. Esse livro pode nos proporcionar um choque de realidade, pois se formos analisar, o país não está lá aquelas maravilhas, cheio de corrupção, pobreza, violência e é claro, a discriminação. Achei bacana a ideia do livro, acho que serve para todos poderem se conscientizar de seus atos, também não podemos dar um de super heróis e querer mudar tudo o que está errado, mas se cada um fizer sua parte, poderia melhorar muito o mundo em que vivemos!!

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  2. Que super resenha, amei. Ainda não conhecia o livro, dica anotada :D

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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  3. Eu não tinha ouvido falar desse livro, mas quando li a sinopse e a sua resenha sobre o conteúdo, me interessei bastante pois trata de vários assuntos. Parabéns pela resenha. ♡

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  4. Bruna!
    Muito bom ver que o autor criou uma nova realidade para nosso país, que diga-se de passagem, não gostei nadinha, e a analogia com as crises que vivemos, torna o livro até crível, embora seja uma fantasia bem alucinatória, não é não?
    Sempre bom conhecer um novo escritor nacional e que escreve com qualidade.
    Semaninha alegre e feliz!
    “No fundo, morrer não seria nada. O que não suporto é não poder saber como terminará.” (A. Amurri)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  5. E quem negar que tudo isso não venha a acontecer?
    Estamos vivendo tempos difíceis...difíceis demais, diga-se de passagem.
    Onde iremos parar com tanto ódio sem motivos, mortes sem explicação e por muitas vezes, censura até de nosso pensar?
    Adorei o tema do livro e cai muito bem hoje em dia, independente de sabermos o futuro ou não.
    Vai para a lista de desejados, com certeza!
    Beijo

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  6. Enquanto eu lia a proposta da história fui identificando várias situações que estamos vivendo e que são capazes de transformar essa ficção em realidade. É muito triste ver a forma que a política está agindo por aqui =/
    Muito boa a sua crítica! Adorei

    Beijos
    www.saidaminhalente.com

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  7. Oi Bruna, tudo bem?
    Quando li a premissa de Ninguém Nasce Herói pela primeira vez, eu me encantei logo de cara com a puta crítica que o livro trazia. A cada resenha eu fico mais e mais curiosa para conhecer esta obra, e me aventurar com os personagens por este Brasil todo censurado. É muito triste pensar que mesmo com toda a "liberdade" de expressão que temos, não estamos muito longe da realidade retratada no livro.
    Adorei a resenha.
    Beijos

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  8. Oi! Apesar do conteúdo "pesado", acho super importante a leitura do livro, já que, infelizmente, nosso país não está longe desse grande retrocesso. Confesso que, se eu pegasse a obra para ler, eu iria me identificar bastante com o Chuvisco, pois eu sempre fui de lutar por aquilo que acho certo, e não duvido que eu seria doida o bastante para fazer o que ele fez, se eu estivesse na mesma situação hahah Chega a ser assustador sequer pensar em viver numa sociedade onde o preconceito reina e não temos liberdade nem para escolhermos nossa própria religião. Quero muito ler o livro, e espero gostar bastante! Beijos

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  9. Oi Bruna! Nossa, que pesadelo essa realidade descrita pelo Eric Novello. Não li o livro (ainda) mas infelizmente o livro dele não foge muito do que vivemos hoje. A situação do Brasil é realmente assustadora e nossos políticos só querem ver o circo pegar fogo. Gostei muito da premissa do livro, da resistência pacífica dos personagens (até porque livros são instrumentos do saber, e o que poderia ser mais perigoso a um governo totalitário do que o conhecimento?) e do alerta que o autor parece pôr sobre a nossa situação política e social.
    Beijos.

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  10. Olá Bruna,
    Gosto de ler distopias e achei interessante a ideia do autor de criar uma em São Paulo e que se não tomarmos cuidado mesmo no futuros seria como se estivéssemos presos no passado e todas as lutas que tivemos por nossos direitos foram em vão.
    A capa tbm chamou a minha atenção e fiquei curiosa para ler o livro.

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  11. Oi Bruna ;)
    A capa do livro é linda e adorei o autógrafo do autor! Infelizmente acredito que pela resenha esse não faz muito meu tipo de livro sabe, portanto não fiquei com muito interesse em lê-lo.
    A premissa é interessante e diferente, tenho que concordar. É importante lermos livros mais sérios de vez em quando, como esse, e que fala sobre temas que as vezes pensamos que estão aquém de nossa realidade, mas muitas vezes não!
    Que bom que o livro apesar de ter o começo meio parado vai evoluindo, e pelo que você disse o autor escreve bem!
    Obrigada pela indicação :)
    Bjos

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