11 outubro 2016

Resenha - Garota Interrompida





Quando a realidade torna-se brutal demais para uma garota de 18 anos, ela é hospitalizada. O ano é 1967 e a realidade é brutal para muitas pessoas. Mesmo assim poucas são consideradas loucas e trancadas por se recusarem a seguir padrões e encarar a realidade. Susanna Keysen era uma delas. Sua lucidez e percepção do mundo à sua volta era logo que seus pais, amigos e professores não entendiam. E sua vida transformou-se ao colocar os pés pela primeira vez no hospital psiquiátrico McLean, onde, nos dois anos seguintes, Susanna precisou encontrar um novo foco, uma nova interpretação de mundo, um contato com ela mesma. Corpo e mente, em processo de busca, trancada com outras garotas de sua idade. Garotas marcadas pela sociedade, excluídas, consideradas insanas, doentes e descartadas logo no início da vida adulta. Polly, Georgina, Daisy e Lisa. Estão todas ali. O que é sanidade? Garotas interrompidas.

Livro: Garota, Interrompida
189 páginas || Skoob || Editora: Única || Onde comprar









“As pessoas me perguntam: como você foi parar lá? O que querem saber, na verdade, é se existe alguma possibilidade de também acabarem lá. Não sei responder à verdadeira pergunta. Só posso dizer: é fácil.”

Ao abrir o livro e me deparar com essa primeira frase, nem preciso dizer que foi inevitável me sentir curiosa para prosseguir a leitura, certo? E posso afirmar que me senti assim durante o livro inteiro. Susannah nos mostra seus relatos e pensamentos do período que passou no hospício durante dois anos, na década de 60. Ela foi diagnosticada com transtorno de personalidade pelo seu terapeuta quando tinha 18 anos e era uma garota que poderíamos considerar uma adolescente normal como qualquer outra. Afinal, tinha vários namorados, não fazia as tarefas da escola e principalmente, não sabia quem seria no futuro pois não queria ir para a universidade. Sim, ela também se automutilava, mas muitas pessoas já fizeram isso e não foram imediatamente enviadas para o hospício. Isso demonstra claramente como as coisas funcionavam naquela época para que você fosse jogada no meio de sociopatas, anoréxicas e esquizofrênicas.

Não costumo ler biografias, mas com toda certeza Garota, Interrompida foi uma das melhores que li. A protagonista não nos dá muito detalhes de como foi parar lá, ela nos mostra a maneira que enxergava o mundo na época que estava doente, olhava para as coisas, objetos, pessoas e até mesmo a comida e pensava muito além daquilo que era observado. Para deixar claro: Susannah não via coisas que não estavam lá, o problema é que sua mente trabalhava de uma forma muito diferente e o significado das coisas não era o mesmo para as pessoas consideradas “sãs”.

No começo, me incomodei um pouco pela falta de cronologia das histórias de Susannah, mas aí me dei conta de que isso, na verdade, estava perfeitamente adequado. Afinal de contas, desde quando a loucura pode ser definida como algo organizado, certo? E é fácil se acostumar com esse tipo de narrativa, pois apesar do livro ser chocante e abordar doenças mentais, essa não é uma história dramática ou pesada demais. Grande parte do conteúdo é bem descontraído, e isso se deve a relação de Susannah com as outras internas, já que cada uma delas têm um diagnóstico diferente.


Ela explica como as coisas funcionavam no hospício, como era a rotina, a forma que as enfermeiras trabalhavam e tratavam cada uma, os termos da psicologia, as visitas que recebiam, sobre o que falava com as outras internas e até mesmo como cada uma delas tinham uma loucura diferente. A protagonista nos mostra também como é ser alguém que pensa e já tentou cometer suicídio, e essa é uma das partes mais interessantes do livro pois podemos visualizar o olhar e a forma que ela enxergava o mundo quando pensava em se suicidar. Susannah parece a mais comportada de todas aos olhos do leitor, mas quando ela relata uma de suas “atuações”, – termo que as enfermeiras usavam quando alguma das internas ficavam agitadas demais ou enlouqueciam – podemos perceber que há diferentes tipos de loucura.

“Na verdade, eu só queria matar uma parte de mim: a parte que queria se matar, que me arrastava para o dilema do suicídio e transformava cada janela, cada utensílio de cozinha e cada estação de metrô no ensaio de uma tragédia.”

Susannah procurou informações mais detalhadas sobre o tipo de transtorno de personalidade que tinha e o que ela acabou descobrindo vinte anos depois foi algo muito interessante. As pessoas que são vítimas da doença, em sua maioria, são as mulheres e até aí tudo bem. O interessante são os comportamentos que a mulher e o homem tinham que demonstrar para que pudesse ser feito o diagnóstico. Um dos sintomas da mulher é a promiscuidade compulsiva, e Susannah levanta uma questão que é impossível não refletir sobre o assunto: com quantas mulheres o homem teria que dormir para ser considerado promíscuo?

A autora deixa claro no livro que nunca teve interesse em entrar para a universidade, mas que sempre quis focar sua vida na literatura e em um namorado ou marido. Essa é uma das coisas do livro que mais me fez refletir, afinal de contas, enquanto somos jovens e estamos crescendo, passamos nossas vidas sendo pressionados pela família e pela sociedade a ser “alguém na vida” e ás vezes, ninguém se importa com quais sonhos você tem e o que você pretende realizar no futuro. Ela passou por isso na década de 60 e é incrível perceber como essa pressão existe até os dias atuais.

O que falar da diagramação do livro? Eu amei tudo nele, a capa, a fonte e o espaçamento entre linhas possibilitam que a leitura seja o mais agradável possível para o leitor. Eu não esperava gostar tanto do livro, mas os relatos da Susannah são tão impactantes que fiquei um bom tempo refletindo sobre o livro. Recomendo mesmo para todas as pessoas, especialmente para aqueles que gostariam de entender como é ser uma pessoa louca, compreender a experiência de alguém que passou anos em um hospício e como é a vida depois de superar todos esses obstáculos. Há também uma adaptação cinematográfica, que é tão maravilhosa quanto o livro e recomendo a todos também.

18 comentários:

  1. Olá Amanda
    Eu também já li esse livro e super recomendo a leitura. As descobertas são mesmo muito interessantes, assim como as questões no hospício e tal. Essa foi uma das melhores que li também, referente ao gênero e estilo, é claro. Sua resenha conseguiu retratar bem o que eu mesma senti.
    Beijos, Fer

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  2. Oi, Amanda.
    Esse livro é muito interessante, por ser uma autobiografia deixa muito explícito os temas como a loucura, a vontade do suicídio e até mesmo o tédio que era estar no Mclean.
    Eu achei muito sagaz da Suzanna pontuar na biografia os motivos que fizeram com que ela fosse parar lá, afinal de contas, ela teria parado no hospício se os pais dela tivessem aceitado os sonhos e as vontades dela?

    Boa resenha. Beijinhos, Hel.

    leiturasegatices.blogspot.com.br

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  3. Oi Amanda. Eu odeio biografias e li poucas como a de Renato Russo, mas essa eu gostei. Muito interessante a história de uma garota contando o tempo dela no hospício ao ser diagnosticada com.um transtorno de personalidade. Fantástico! Mas o melhor de tudo foi saber que ela era quase uma adolescente é isso.me chamou muito atenção. Curti. Dica mais que anotada! Beijos

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  4. Olá,
    Confesso que me surpreendi com sua resenha, pois pela sinopse eu imaginava que o livro fosse ser completamente diferente e que eu não gostaria tanto dele. Mas, eu realmente darei uma pesquisada para ver se consigo adquirí-lo, pois fiquei com muita vontade de ler e conhecer mais sobre a história da Susannah e todas as outras internas também.
    Bjs

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  5. Oi Amanda,

    Esse livro é incrível! Me lembro que assim que assisti o filme, que por sinal é incrível, fui correndo ler o livro e foi uma leitura maravilhosa. Eu também não leio muitas biografias, mas valeu super a pena. É muito fácil chegar a onde a protagonista chegou, as vezes a gente subestima a nossa loucura diária e nossa consciência. Adorei a sua resenha e fico feliz que tenha gostado do livro.

    beijos =)

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  6. Oi, tudo bem?
    Da pra acreditar que eu não sabia que a obra se tratava de uma biografia? poise, descobri lendo sua resenha haha tinha vontade de adquirir a obra por causa da capa, mas nunca tinha lido nada sobre ela, e lendo a sua resenha percebi tem um tema muito interessante e tem essa questão de que naqueles tempos as coisas era bem diferente, deve da pra refletir bastante, mas não gosto (e quase nunca consigo lê mais que algumas páginas) de livros do gênero, e por isso vou deixar a dica passar.

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  7. Olá Amanda,
    Adorei sua resenha e a premissa do livro é bem interessante. Acho que deve ser terrível ler sobre o que fez uma pessoa, até então, sã, ir parar em um hospício e como ela lidou com isso. Se estivesse no lugar de Susannah não sei se teria coragem de contar minha história e a história de outras pessoas. Com relação à promiscuidade: a mulher é, por dormir com 2 ou mais homens, mas o homem é o bom. Quero saber que a autora tem a falar sobre essa parte.
    Claro que vou anotar a dica de leitura.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  8. Olá!! :)

    Eu não conhecia etse livro mas talvez não leia... A verdade e que não sou grande fa do género...

    Contudo, o tema agradou-me, toda essa temática da pressão da sociedade e dos seus padroes, do transtorno de personalidade..! :)

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-do-livros.webnode.com

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  9. Olá,
    Mesmo com tanto sucesso que o livro e sua adaptação fizeram, ainda não consegui ter coragem de comprar e então iniciar a leitura dessa obra.
    A premissa é bem interessante e não se assemelha a nada que eu já tenha lido antes pelo fato de nos trazer toda uma explicação de como funcionam as coisas em um hospício e como a personagem conseguiu lidar com tudo isso.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  10. Olá ♥
    Estou louca querendo ler esse livro. Não curto muito biografias, mas essa me despertou um certo interesse. O filme eu comecei a assistir, mas parei por que queria ler o livro também por ser algo mais detalhado.O que me deixa intrigada é o por que que ela foi para lá, como você disse o livro não dá muitos detalhes. A capa desse livro está maravilhosa.Pretendo em breve poder ler ♥ A resenha está maravilhosa. Beijos ♥

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  11. Oi Amanda! Caramba quando eu vi o título desse livro fiquei muito interessada mesmo sem conhecer o conteúdo mas nunca imaginei o assunto que ele aborda em suas páginas e achei muito bacana. Imagino que viver no hospício em uma época em que a psicologia ainda não era tão avançada deve ter sido um absurdo e a forma como diagnosticaram ela também é de se indignar. A dica já está super anotada psra as minhas leituras futuras.
    Bj

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  12. Olá!
    Eu também não gosto muito ler biografias, mas essa morro de vontade de ler. Sem falar que é uma obra super comentada né? Adorei a autora levantar essa questão da promiscuidade porque realmente, para os homens a quantidade teria que ser extremamente maior para ser considerado isso.
    Beijos.
    http://arsenaldeideiasblog.wordpress.com/

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  13. Olá =D
    Morro de vontade de ler esse livro, mas ainda não consegui.
    Já trabalhei em um local com clínica psiquiátrica e é terrível o que acontece lá. Vi pessoas muito bem sendo internadas e todos sendo tratados da mesma maneira.
    Particularmente, não acredito nessa "loucura". Acredito que todos nós temos problemas, alguns mais graves, alguns doenças. Mas nada disso é loucura. É uma doença e deve ser tratada. É muito triste ver tantas pessoas piorando nessas clínicas. Tenho certeza de que se há alguns anos atrás, tivesse consultado com um psiquiatra, eu teria parado em um hospício. A maioria de nós teria parado.
    Alguns médicos da área, me lembram muito O Alienista. Prendendo muitos por quase nada. Sei lá. Para mim, internação é só para último caso. E não me parece ter sido o caso da menina. Mas ainda não li, estou falando com base nas resenhas que já li.
    Meu medo sempre foi parar em uma clínica dessas. Muitas garotas são violentadas, espancadas. Muita gente que está saudável fica doente. E muito doente só piora :(
    Acho que a "loucura" é comum do ser humano. Todos nós somos um pouco. Alguns mais., Outros menos. Mas se fôssemos prender todos os "loucos" teríamos que ter uma imensa casa verde.
    Putz... estou filosofando demais né? hahahah
    Mas então, acho que é isso.
    Quero muito ler o livro, já tenho ele, só me falta tempo. Mas imagino que vou sofrer muito, mesmo a narrativa sendo leve.
    Beijooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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  14. Olá,

    Já faz um tempo que li esse livro, mas achei a temática dele fascinante, eu gostei muito do desenvolvimento da história e aliado a escrita boa da autora fez o livro ser incrível. Tô doida para assistir ao filme, porém sempre acabo esquecendo hahaha.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com

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  15. Achei incrível como o livro já nos consegue prender pela frase inicial, também ficaria como você. Sobre ordem cronológica, já li alguns livros assim, inclusive biografias, é algo difícil de se acostumar. Fiquei curioso com estes relatos e sua resenha me fez ficar ainda mais preso.

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  16. Oi Amanda, que legal essa biografia! Das poucas que já li, sem dúvida as que trazem conteúdo pesado foram as melhores. Essa parece bem interessante, já que não deve ser nada fácil ser internada em um hospício. Vou procurar mais sobre esse livro. Abraços

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  17. Olá amore,
    Pela resenha parece se tratar de um livro muito bom e interessante.
    Assim como você também ficaria curiosa pela livro, por conta da frase inicial... e com sua resenha, fico ainda mais curiosa!
    Curiosa pra ler.
    Beijokas
    www.facesdeumacapa.com.br

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  18. Oi, tudo bem?
    Embora eu muito tenha ouvido falar do filme, do livro eu não ouvi tanto quanto gostaria, mas pelo que notei através da tua resenha, estou perdendo uma leitura das bombásticas! Questões realmente boas para se refletir sobre o que esperamos de nós mesmos e o que os outros esperam da gente, nem sempre as mesmas coisas.
    Abraços e beijos da Lady Trotsky...
    http://rillismo.blogspot.com

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