03 junho 2021
Resenha - Agente Charlotte

"Eu brinquei com a sua cabeça, deixei pensar que tinha um espião na sua delegacia. Estava sempre um passo a frente de você. Quem você acha que avisou aos traficantes sobre você e seu colega?"

"Agente Charlotte" é um livro extremamente curto, de leitura rápida e instigante. É narrado em primeira pessoa pela Charlotte e essa narração se mescla com diálogos curtos, o que favorece ainda mais a fluidez dos capítulos, também não muito longos. A escrita da Helô é direta, sem termos técnicos e boa de absorver, mas a trama contém muitos momentos tensos.
Já começamos com o título curioso do primeiro capítulo: "um tiro no telhado". A partir disso, entramos na história já em uma cena de ação que mostra Charlotte fazendo o que sabe de melhor e partindo para cima dos seus alvos sem medo. Ela escolheu ser policial federal após algumas coisas em sua vida não caminharem para onde esperava, o que deixou sua avó apreensiva, pois a irmã de Charlotte também está nesse ramo pergisoso e as duas não temem nada.
O livro não possui muitas descrições ou aprofundamentos das cenas. Os crimes e momentos de perseguições ou quando se fala nos casos não são explicados totalmente, apenas de forma geral e logo se passa para outro caso. No começo, achei que isso era um problema, porque não estava conseguindo entender qual era o foco, mas logo isso se resolveu e o caso principal ficou claro. Apesar de poderem ser mais demoradas, entendi que essas cenas de crime eram mais um plano de fundo para conhecermos Charlotte.
Ela é uma mulher muito inteligente e isso é perceptível quando um caso é solucionado de forma muito rápida, pois depois ela nos apresenta sua linha de raciocínio e tudo fica claro. Gostei bastante da personagem e achei ela muito forte por tudo que passou e que ainda tem que lidar.
"Ser mulher na Polícia Federal não é algo fácil. Porque mesmo sem te conhecerem, já te subestimam, acham que você não é capaz ou forto o bastante. É preciso, portanto, ir além do que qualquer outro homem já foi para ser reconhecida, ou ao menos respeitada."
Quando David é inserido na história, temos um personagem brincalhão, mas ao mesmo tempo traumatizado com um acontecimento com seu antigo parceiro. Os momentos dele com Charlotte são engraçados, embora no começo ela se irrite fácil com ele por não estar habituada a ter alguém tão próximo e com quem ela precisa dividir seus pensamentos sobre as ocorrências.
No desenvolvimento, vemos mais pessoas se inserindo na vida de nossa protagonista e a forma como ela lida com isso, já que sempre viveu muito sozinha, tendo só sua avó e pouca aproximação com a irmã. Em um certo momento, sua avó a convida para ir até a Igreja e, por algum motivo, Charlotte aceita.
A abordagem da fé foi algo que me surpreendeu muito nesse livro, pois imaginei de tudo menos isso. Pensei que fosse falar de um único crime, uma única missão, mas foram vários e a verdadeira história, para mim, era a vida de Charlotte, seu jeito de viver.

Lá ela conhece Igor e então mais um passo em sua vida social é dado, porém, junto com isso, surge a suspeita de que alguém de dentro da polícia está vazando segredos de um caso muito importante. Então Charlotte começa a desconfiar de todos, inclusive de seu parceiro de trabalho e, depois, de Igor.
Ele parece ser o cara perfeito e isso deixa ela muito insegura, sempre se perguntando se é ou não o suficiente para ele, se ele a acha bonita.
"Own... A durona da Polícia Federal está se sentindo insegura? Tem um coração de manteiga por baixo desse colete à prova de balas, tem?"
Embora sem muitas certezas, ela tenta começar um relacionamento. Achei precipitado e rápido como as coisas fluíram entre eles, pois quase não sabiam nada um do outro, mas na vida real o que mais se repete são amores a primeira vista. Enquanto isso, Charlotte segue sua outra vida investigando e tentando descobrir quem é o informante que está entre eles, ao mesmo tempo que também se sente na obrigação de proteger Isaque, o menino que é amigo de sua avó, por causa do que aconteceu ao irmão dele em uma das missões dela.

"Sabe a sensação de que mesmo fazendo tudo certo, você ainda se sente errado de alguma forma? Se eu soubesse o tamanho do meu erro, teria terminado esse caso bem mais cedo."
Além disso, achei muito importante a humanização do policial nesse livro. Mostrar que eles se abalam com as mortes, de parceiros ou não, é algo fundamental para a conscientização de que policiais sentem exatamente o que sentimos, eles só estão mais preparados para esconder isso do mundo exterior, mas dentro de si as marcas ficam e continuam doendo.
Gostei bastante de tudo, ainda mais por ser um livro curto. Mesmo assim, a única ressalva que tenho é sobre as cenas de ação serem rápidas demais, quase fica difícil visualizar tudo ou acompanhar o que está acontecendo. Precisei ler devagar, assim fui assimilando tudo, mas seria ótimo se esse ritmo rápido se intercalasse com momentos calmos e lentos, com mais descrições, para causar mais emoção. Isso não é algo extremamente necessário, o livro passa bem tudo que acontece e muitas cenas são dignas de velozes e furiosos ou jogos de videogame, o que achei muito legal.

Livro: Agente Charlotte
Cortesia: Helena Grillo (Autora Parceira)
Número de páginas: 100
Skoob / AmazonComo muitas brasileiras na faixa dos 30 anos, Charlotte curte pizza, ver séries na Netflix, e é claro, prender traficantes de armas, contrabandistas e políticos corruptos.
Se você gosta que a sua leitura tire seu fôlego, leia esse livro.
02 junho 2021
Resenha - Angel's Blood

Melody e Fly são um casal de cupidos, anjos que fazem os humanos se apaixonarem. No céu, há diversas funções e hierarquias que os anjos devem seguir, no caso dos cupidos, eles devem viver com seu par para sempre, porque toda vez que descem à Terra e unem um casal, o laço que os prende depende também da força da união dos cupidos. Eles vivem em harmonia, fazem todos os dias o mesmo trabalho, com as mesmas burocracias, porque precisam investigar a vida de quem vão unir, para, somente depois que preencherem o relatório, façam de fato a união, e se sentem felizes com essa missão dada a eles por Deus, embore existam anjos mais importantes, como os da guarda, que são quase celebridades.
Fly é extremamente apaixonado por seu par, Melody, e eles já convivem há muito tempo, sendo muito exemplares em suas uniões. Porém, em uma das descidas à Terra para cumprir uma nova missão, Melody começa a se sentir tentada enquanto observa um humano, fazendo mais do que apenas registrar informações para uma futura união dele com a mulher que Fly está investigando. Ela não sabe o que está sentindo, porque em sua dimensão não há pecados, mas ela sabe que o deseja mais do que qualquer outra coisa, nem que seja por um breve momento. Cansada de sempre ter que fazer o mesmo, não se sentindo mais tão próxima de Fly, ela começa a perder sua inocência sem nem perceber a gravidade de tudo.
Seu par não entende o porquê do distanciamento entre eles quando voltam da missão. Depois dela, Melody parece o evitar em todos os momentos e, mesmo pedindo ajuda, ele não consgue descobrir o que está acontecendo com ela e, além disso, o que está acontecendo com as flechas dele, que parecem não estar mais funcionando tão bem. Ele pensou em todas as hipóteses para os últimos acontecimentos estranhos, menos na que Melody criou, ou foi seduzida a criar por alguém que não mais pertence aos anjos de cima. Porém, nada mais interessa, Fly está cego pela vontade de vingança contra sua ex-parceira.
"Estava lá, diante dele. Metade de mim gritava, eufórica: Vamos lá, Melody, atire esta flecha. É o seu trabalho. A outra metade tremia covardemente e ssussurrava em meus ouvidos: Se você atirar, vai perdê-lo para sempre..."
[- Minhas Impressões -]
Narrado em primeira pessoa, por mais de um personagem, Angel's Blood conta, então, a história principal de dois anjos, mas mais focada em Fly e seus sentimentos conflituosos quanto a mudança brusca em sua vida e o crescimento de sensações que ele nem pensou que um anjo, até então, poderia sentir. As narrações se intercalam entre os personagens, não dando exatamente um destaque para cada um na hora de sua voz, porém é perceptível que tudo gira em torno de Fly e o assunto inacabado que ele tem na terra. Portanto, conseguimos entender ele, a visão que os outros tem dele e da situação e também somos informados de tudo que está acontecendo em todos os âmbitos, por isso gostei muito da escrita ser assim e facilitou para conhecer a personalidade de cada anjo e suas funções.
O enredo é instigante, apesar de eu ser um pouco suspeita para falar, pois amo histórias com anjos, mas realmente me surpreendi com a qualidade da trama, a escrita direta e rápida de ler, os capítulos que acabam em pontos que fazem a gente querer continuar e a trama diferente, porque, pelo menos eu, não esperava que iria pelo caminho que foi e acabei ficando extremamente obcecada com a leitura e não desgrudei até saber o desfecho. Quando fechei o livro, parecia em estado de choque (e quase fui implorar pela sequência na DM do instagram da Lia).
No começo já vemos que algo está errado para Melody, pois ela parece cansada de tudo que vem fazendo ao longo dos anos, inclusive de ser "obrigada" a permanecer ao lado de Fly, quem ela ama, mas não como ele a ama. Então eles são mandados para mais uma missão e ela conhece o humano Bruno, alguém com um passado tão complicado e triste, que a faz se interessar por ele mais do que o necessário. Assim, ela começa a passar mais tempo na Terra observando ele do que no céu, com Fly.
"Os humanos têm tanta sorte; cada momento é único para eles, com suas vidas delicadas e frágeis, que, apesar de curtas, são intensas. Eu os admiro muito, e sinceramente às vezes sonho em ser como ele. Imaginar como é a sensação de ser de carne e osso. Sentir o sol, o ar e o amor..."
O tempo vai passando, e isso é marcado por meio de recursos textuais diretos ao longo do texto em alguns momentos, dando saltos pequenos e, em outros, bem maiores (como meses), Melody se vê cada vez mais incapaz de atirar em Bruno a flecha que o uniria com a humana que está com Fly. Perto dele, ela percebe que sente emoções que nunca sentiu, pois são emoções humanas e físicas. Inocente, sem perceber o caminho traiçoeiro pelo qual está indo, ela começa a ver que suas flechas não se formam mais como deveriam, assim como as de Fly também estão estranhas. Para a união, ambos deveriam ter o mesmo próposito para a flecha ganhar força, mas nenhum dos dois entende a razão disso tudo.
Sentir-se quase humana nunca se passou pela cabeça da cupida em milênios de trabalho e ela entra em conflito, por tudo ser novo e mais do que tentador. Para ela, há duas escolhas: se cair em tentação, sabe que todos os humanos que ela e Fly já uniram vão ser tomados por ódio e afetados drásticamente. Se ignorar o sentimento e se esforçar para acertar Bruno, irá conviver com o peso da dúvida e a insatisfação que vem sentindo, para toda a eternidade. Não conseguia entender por que fugia de Fly e por que esse humano em especial a estava fazendo abandonar sua inocência.
A partir da escolha, ficou claro que não havia um caminho bom e outro ruim: o peso foi muito maior do que qualquer um poderia imaginar. Interferindo diretamente no Céu, Fly implorou por ajuda a seus coordenadores, que não podiam mais fazer muito para ajudar, não até que uma ameaça contra humanos e seres de outro plano fosse feita. E isso não demorou a chegar. Até então, o ritmo do livro era lento e íamos acompanhando as visitas aos humanos, os dilemas de Melody, a preocupação de Fly e as burocracias, mas após a ruptura na trama, tudo passou para um pico alto de tensão e curiosidade.

Por alguns capítulos, ficamos sem o ponto de vista de Melody. Enquanto fui lendo, ficava cada vez mais curiosa com o que tinha acontecido a ela e o que iria acontecer com a consequência dos atos de todos os envolvidos, pois toda a hierarquia divina - e não divina - começou a prestar atenção na situação um tanto quanto rara e absurda.
Passamos para um ponto de vista de vingança, ódio, que refletiu na sociedade humana de forma desastrosa, como o esperado. Fly não queria entender as motivações de Melody, já que ela não conversou com ele e omitiu tudo. Com o desaparecimento dela e a descoberta, a raiva cresceu ainda mais e o desejo de fazer o mal trouxe problemas para ele também, afinal, ele não deveria se sentir assim. No começo, foi difícil para eu conseguir gostar dele, porque parecia um chato e estava sempre investindo em Melody, que claramente não estava bem, porém, ao começar a entrar no ponto de vista dele, entendi o seu lado e o peso que caiu sobre ele. Logo se tornou um personagem muito querido.
"O amor e o ódio são como duas metades de um mesmo rio, separadas apenas por uma fina camada de gelo, que é a confiança. Uma pequena rachadura pode unir e misturar esses dois sentimentos tão importantes de uma forma tão avassaladora que aquilo que um dia foi um grande amor de repente pode se transformar no mais puro ódio..."
Eu gostei demais da ambientação do livro. Temos a Terra, o Céu e o Inferno, cada um deles com suas características próprias, e isso ficou muito bem visível durante a narrativa, mesmo que o texto não se prolongue em descrições. Ver as questões de hierarquia em cada plano, as diferentes funções dos anjos, por exemplo, e de que forma eles são importantes e o que fazem foi muito interessante. Essa foi uma das partes mais diferentes que me chamou atenção. Em relação a isso, também foi mostrado que corrupção não é somente uma falha humana, mas atingem inclusive seres celestiais, afinal, somos quase um espelho deles pensando na criação divina. Eles cometem erros, são julgados, pecam, e isso foi um ponto de vista sensacional!
Uma coisa ótima que me aconteceu foi sentir que não tive paz um minuto sequer durante a leitura, estava sempre inquieta e curiosa. As cenas de ação são bem escritas, os sentimentos são passados para o leitor e, a partir de um ponto, é um plot twist atrás de outro sem pausas para que eu pudesse me recuperar, então só segui sendo embalada pelo ritmo frenético do livro. A tensão caracterizou meu estado de espírito, porque não sabia qual rumo a história seguiria tomando, o que Fly iria decidir, então fiquei muito angustiada e, depois, muito surpresa com as mudanças e atitudes, principalmente de Fly.
"Está tudo acabado. Todo o trabalho de uma vida... tudo pelo que eu me orgulhava está perdido. Desde quando ela está me apunhalando pelas costas? Como ela pôde fazer isso? Eu sempre fiz tudo por ela, eu a amava. Ainda amo. É assim que termina? Sempre com alguém machucado?"
Além disso, os personagens são únicos, com suas personalidades fortes, e percebemos isso através do modo como eles falam, se comportam e pelas narrações de cada um, não precisando de tantas descrições sobre eles. A autora conseguiu perfeitamente nos dar uma visão de, por exemplo, como é uma Inccubus, de como ela pode ser sedutora, de como um anjo é inocente e outros não são tão inocentes assim. A ira dos anjos caídos, o peso de ser um Anjo da Guarda. Guerras contra demônios, enquanto os humanos estão no meio. Essa diversidade de personagens das três dimensões compôs bem a trama, enriquecendo os cenários, os diálogos e o desenrolar dos fatos.
Enquanto no Céu ficamos sabendo que há punições e anjos com traços tão humanos, na Terra acompanhamos esses humanos em suas vidas banais, mas percebendo como os anjos ou demônios afetam eles a todo momento, todos os dias, para o mal e para o bem. Enquanto isso, no Inferno, há alguém observando tudo e apenas esperando o momento certo de agir, pensando muito estrategicamente e fazendo alianças com quem acha ser útil. Porém, fiquei me perguntando qual o papel de Deus nisso tudo.
Em um determinado momento, a história dá um salto de treze anos, pois é necessário para acompanhar certas situações e desenrolar o que Fly vinha pensando, enquanto se fingia de protetor - ou não. Muitas coisas aconteceram e mudaram, mas outras continuam iguais: Fly ainda pensa em sua vingança, as consequências do ato de Melody ainda deixam os Anjos em alerta, enquanto ela ainda está desaparecida.

Finalmente chegou o tempo de agir e nessa parte os acontecimentos ficam mais sufocantes do que já eram, com novas descobertas de traição e injustiças com quem está lutando para a proteção de algo muito poderoso, embora eles ainda não saibam quão poderoso o quão poderoso.
Partindo dessas últimas informações, não posso revelar mais nada da história, pois o cuidado com spoilers precisa ser grande, já que o baque e o envolvimento com ela é justamente feito por essa curiosidade, apreensão, incredulidade, tensão e infinitos outros adjetivos que caracterizem surpresa. Para mim, foi uma montanha russa de emoções, porque aprendi a amar personagens que odiava e odiar aqueles que amava. Muitas vezes eu fui surpreendida pelas mudanças, outras eu previ, e acabei lendo o livro extremamente rápido por não conseguir me soltar desse mudo sobrenatural.

Livro: Angel's Blood
Cortesia: Aline Silvetri (Autora Parceira)
Número de páginas: 277
Skoob / Amazon
Fly é um especialista em amor. Como cupido, seu trabalho é levar esse sentimento aos corações humanos. Há mais de mil anos vive feliz ao lado de sua amada. Até seu mundo ruir ao descobrir que aquela a quem dedicou toda uma vida é uma traidora. A partir de agora, Fly viverá apenas por uma razão: VINGANÇA



