06 setembro 2017

Resenha - Sempre vivemos no castelo

Título: Sempre vivemos no castelo
Autor: Shirley Jackson
Cortesia: Cia das Letras / Suma de Letras
Skoob / Goodreads
Páginas: 152
Onde comprar: Saraiva / Amazon

Merricat Blackwood vive com a irmã Constance e o tio Julian. Há algum tempo existiam sete membros na família Blackwood, até que uma dose fatal de arsênico colocada no pote de açúcar matou quase todos. Acusada e posteriormente inocentada pelas mortes, Constance volta para a casa da família, onde Merricat a protege da hostilidade dos habitantes da cidade. Os três vivem isolados e felizes, até que o primo Charles resolve fazer uma visita que quebra o frágil equilíbrio encontrado pelas irmãs Blakcwood. Merricat é a única que pressente o iminente perigo desse distúrbio, e fará o que for necessário para proteger Constance. 'Sempre vivemos no castelo' leva o leitor a um labirinto sombrio de medo e suspense, um livro perturbador e perverso, onde o isolamento e a neurose são trabalhados com maestria por Shirley Jackson.






Bom, não sei bem como começar contando a vocês sobre esta minha inquietante experiência. Shirley Jackson abriu as portas para um mundo até então desconhecido por mim. 

Sempre Vivemos no Castelo foi uma típica obra que, ao apreciar a capa, não pensei duas vezes sobre minha escolha. E devido a uma certa "fofura" contida nela, imaginei que não tinha algo tão horripilante através da capa. 

Não horripilante no sentido literal. Não que seja algo de gelar a espinha e gerar pesadelos. Mas algo, digamos, "fofo-horripilante". 

"Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas". 


Mari Katherine, ou apenas Merricat, é uma das poucas sobreviventes da família Blackwood. Mora numa casa afastada da cidade com sua irmã Constance, seu tio Julian e seu melhor amigo Jonas, o gato. 

Logo no começo o mistério sobre a morte da maior parte da família Blackwood nos incomoda, já estamos totalmente introduzidos na história, porém sem um começo. É como se sentir na típica expressão "peixe fora d'água" e a única certeza que temos é que todos morreram e deixaram muito para trás. 

O mais curioso é que no decorrer do livro vamos tendo detalhes esparsos sobre a morte da família Blackwood e a convicção de que alguma parcela de culpa as irmãs tem na morte deles. 

"O pessoal do vilarejo sempre nos odiou.". 

Merricat, a personagem principal e também narradora do livro, é uma garotinha peculiar e sempre deixa transparecer seus delírios constantes e sua vontade incessável de ver todos mortos. Os únicos que importavam em sua vira era Constance, o tio Julian e Jonas. 



No decorrer da história vamos cada vez mais nos imergindo alucinações que a própria Merricat cria, como viver na lua, e nos diálogos surreais entre as irmãs, e, por vezes, é questionado se toda aquela história realmente teria acontecido ou se era algo das mentes perturbadas das duas. 

Todos os personagens da obra tem uma característica bastante próprias. Merricat é bem lunática, e ao mesmo tempo com uma sede de vingança insaciável - se é que se pode denominar assim. 

"A cova acomodaria com delicadeza a cabeça dele. Gargalhei quando descobri uma pedra redonda do tamanho certo, e desenhei um rosto com a unha e a enterrei no buraco. 'Adeus Charles', me despedi.".

Constance é uma pessoa muito dócil, mas que se fechou, literalmente, para o mundo lá fora. Tio Julian, um "louco" fissurada em recontar a história da própria família, vive com a cara enfiada nos papeis, que segundo ele eram "arquivos muito importantes". 

O que não se pode negar é o sentimento do medo que nos acompanha do começo ao fim. A ambientação, o isolamento dos personagens, o receio do contato com pessoas, é algo muito peculiar. Peculiar ao ponto de ser tudo uma saborosa novidade no âmbito literário. 


O ponto mais marcante do livro, além de todo o mistério ainda a se descobrir, é o amor obsessivo que Merricat tem por sua irmã Constance. 

" 'Bom', disse Constance, 'eu tenho medo de aranha'. 'Jonas e eu não vamos deixar que aranha nenhuma chegue perto de você. Ah, Cosntance', eu disse, 'nós somos tão felizes' ". 

A mansão dos Blackwoods, antes do horripilante e misterioso acontecimento agora se tornou um esconderijo para o restante da família, onde se escondiam de pessoas, de julgamentos, de acusações, e até deles mesmos. Era o castelo onde viviam. O lugar onde nada nem ninguém poderiam oferecer mal algum a eles. 

É uma narrativa abarrotada de segredos. A medida em que vamos avançando na história e conhecendo ainda mais a intimidade da família, vamos ligando os pontos e por mais estranho que pareça, acreditem, é uma aventura sem igual. 

" 'Fico pensando se eu conseguria comer uma criança se a oportunidade surgisse'. 'Não sei se eu conseguiria cozinhar uma', disse Constance". 

Confesso que após ler a última página fiquei meio chateada com a forma que a autora findou a história. Mas a medida que ia refletindo sobre os acontecimentos me vi cada vez mais apegada a escrita da autora, aos personagens ao enredo desafiador e obscuro que rodeia nosso castelo. 

Pesquisando sobre a Autora, li uma característica singular sobre ela: "ou você ama, ou você odeia". E, sinceramente, achei que infelizmente para mim seria a ultima opção. Mas algo fantástico aconteceu a medida em que ia digerindo os fatos, e hoje, posso dizer com convicção que amo Shirley Jackson. 

O enredo é denso, mas ao mesmo tempo apaixonante. É obscuro, mas adorável. Assustador, porém, gentil. (Acho que já perceberam a minha primeira fala de que é um livro "fofo- horripilante"). 

É muito difícil conseguir adentrar à história em si. Há, no decorrer dos acontecimentos, devaneios dos personagens, o que me deixou ainda mais centrada a todo e qualquer detalhe que a autora pudesse nos oferecer e desvendaria o motivo de tanto medo, e o motivo da morte de toda a família. 

Não sei se é uma obra indicada para todos os leitores. Acredito que muitos irão odiar, outros irão abandonar a leitura. Realmente não é fácil conseguir se familiarizar com esta peculiar família de 3 pessoas e um gato, mas garanto que é uma experiencia incrível. Uma novidade que veio para arrebatar parâmetros do suspense e até onde devemos confiar na mente das pessoas. 


O grupo Companhia das Letras mais uma vez, com toda sua maestria, capricho e dedicação, conquistando os leitores pelos olhos e conseguindo, definitivamente, chegar ao coração. O design gráfico de Sempre Vivemos no Castelo foi algo que me deixou boquiaberta e arrancou inúmeros suspiros. Este foi meu primeiro contato com o selo Suma. Foi uma primeira impressão maravilhosa. 

As páginas amareladas, fonte agradável e cores apaixonantes me deixaram encantada pela obra num todo. 

Fica aqui minha deixa. Quem tiver oportunidade, se deixe levar pelos mistérios e devaneios deste magnífico castelo. É uma viagem que marcará para sempre as aventuras literárias. 


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12 comentários:

  1. Amanda!
    O livro foi lançado antes de eu nascer, bacana! Nasci em 1965.
    Difícil viver de passado e se trancar em uma redoma, não permitindo que a atualidade e a realidade se façam presentes.
    O mundo pela visão de Mary parece bem ilusório e confuso, fico me perguntando se ela não tem algum distúrbio psicológico?
    Agora todo livro que traz reflexão sobre a vida, acredito que valha a pena ler, pois podemos questionar nossos pontos de vista.
    Uma pena que você está no 'hall' das pessoas que não gostaram da leitura...
    Desejo um ótimo feriado!!
    “A sabedoria consiste em ordenar bem a nossa própria alma.” (Platão)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  2. Oi Amanda.
    Eu assim como você, fui pega pela capa.
    Desde o primeiro momento achei ela fofa e esperava uma história fofa também, porém não estou decepcionada só impressionada.
    Eu fiquei curiosa para ser quais mistérios envolve a morte da família e o porque dessa sede de vingança, é uma pena que não gostou tanto assim do final, mas acontece, essa coisa de ou você ama ou você odeia, funciona muito bem para mim.
    Bjs.

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  3. Oi Amanda, tudo bem?
    Posso dizer que o que me chamou atenção neste livro foi esta capa maravilhosa, a editora com certeza fez um trabalho incrível. A premissa deste livro é muito intrigante, pois fiquei bem curiosa para saber o que causou a morte de todos os familiares de Merricat, e inclusive já formulei algumas teorias. Ótima resenha.
    Beijos

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  4. Olá Amanda,
    Tenho um fascínio pelo horripilante. Gosto muito de um suspense bem elaborado com toques de terror ou sobrenatural.
    Quando vi esta capa, também achei super fofa, nunca julgaria que a obra seria sobre meu gênero favorito!
    O quote escolhido para a descrição de Maricat é perfeito, já imaginei a personagem ao lê-lo. Sua loucura e seu desejo de vingança a tornar uma pessoa difícil de esquecer. Fiquei super curiosa para conhecer seus devaneios.
    Os demais personagens também parecem ser muito bem construídos, já os consigo imaginar mentalmente. O amor de Maricat pela irmã parece se destacar ao longo da narrativa.
    Agora acredito que o melhor do livro são os mistérios que vão se desvendando, como num novelo de lã. Os segredos vão se descortinando para o leitor, que se envolve totalmente e se transporta para dentro da mansão.
    Em relação aos grupos dos que amam ou odeiam, acredito que ficaria no primeiro grupo, apreciei bastante o que foi descrito na resenha e fiquei super curiosa para conhecer a escrita da autora.

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  5. Nossa, no começo da resenha pensei que o livro era estilo Desventuras em série, mas pelo jeito é algo mais psicótico... Quando você diz que a história talvez não tenha acontecido e poderia ser algo da mente das duas, me identifiquei muito! Gosto muito de histórias assim, que surpreendem o leitor! Fiquei muito curiosa para ler, espero não ficar chateada também com o final.

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  6. É, realmente a capa é uma fofura, mas só isso mesmo. Não sei que esse livro traria uma historia dramática assim, pensei que fosse mais um livro de amor clichê, de romance fofinho. Engano meu, fui pega pela capa também!
    Fiquei curiosa pra saber mais sobre esse amor possessivo que a protagonista sente pela sua irmã e a morte da família. Adoro livros que trazem alguma reflexão e que mexe com nossas mentes.
    Adicionei na minha listinha, beijos.

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  7. Olá Amanda ;)
    Realmente pela capa não conseguiria imaginar que o livro aborda essa temática obscura. Se visse em uma livraria ia achar que era um livro super fofinho kkkk
    Estou sempre aberta a novos livros e gêneros, então acho que iria gostar de dar uma chance a Sempre Vivemos no Castelo.
    Achei a Merricat e essa irmã dela bem sinistra, da pra ver isso nos quotes que você separou. Mas como eu adoro personagens diferentes... haha
    Vou deixar o livro anotado na lista de leitura, obrigada pela indicação
    Bjos

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  8. Oieee!!
    Uau! Essa capa é simplesmente perfeita, adorei a arte dela. Pela capa parece ser um livro fofo, um romance de época ou algo do tipo. Fui iludida kkkkkk. Nunca imaginaria que seria suspense.
    A resenha despertou certa curiosidade em mim, quero saber quem é esse primo que apareceu derrepente, acho que ele é envolvido no assassinato da família.
    Constance parece ser uma personagem sofrida, mas corajosa.
    Amo esse livros que fazem a gente pensar... Pois estou pensando muito sobre ele agora, sobre as possibilidades, preciso urgentemente desse livro.
    Beijooooos, amei a resenha.

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  9. Olá!
    A capa do livro é muito maravilhosa, simples e perfeita, através dela não chegaria nem pensa do que iria a historia, deixaria a pessoa com um ar de suspense e mistério. A trama e bastante envolvente, gostei muito dos personagens, os suspense da morte da família e também o carinho, a obsessão que a garotinha tinha pela irma. Uma historia bem assustadora e bem maravilhosa.

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  10. Oi! Que bom que você entrou no grupo dos que ama, e não no grupo dos que odeia a autora. A capa do livro é realmente linda, e fiquei super curiosa com esse mistério presente na história. Beijoss

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  11. Que capa lindaaa ( que vergonha nunca tinha ouvido falar sobre esse livro) não sei se leria e se faria parte do grupo que amaram rsrsrs.

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  12. Ingressar nessa leitura, portanto, é deixar-se conduzir por uma mente não tao confiável e saber até onde tudo é verdade ou não, certo? A proposta desse livro é maravilhosa, principalmente por causa da questão psicológica que você pautou, mas também mela morte dos familiares que desperta a curiosidade de qualquer leitor. O segundo quote me intrigou bastante, na verdade, o que me leva a questionar os motivos para eles serem odiados. Enfim, está na minha lista agora.

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