08 junho 2017

Resenha - Garota em Pedaços


Título: Garota em Pedaços
Autor: Kathleen Glasgow
Cortesia: Planeta / Selo Outro Planeta
Páginas: 383
Onde comprar: Amazon / Saraiva

Além de enfrentar anos de bullying na escola, Charlotte Davis perde o pai e a melhor amiga, precisando então lidar com essa dor e com as consequências do Transtorno do Controle do Impulso - um distúrbio que leva as pessoas a se automutilarem. "Viver não é fácil". Quando o plano de saúde de sua mãe suspende seu tratamento numa clínica psiquiátrica - para onde foi após se cortar até quase ficar sem vida -, Charlotte Davis troca a gelada Minneapolis pela ensolarada Tucson, no Arizona (EUA), na tentativa de superar seus medos e decepções. Apesar do esforço em acertar, nessa nova fase da vida ela acaba se envolvendo com uma série de tipos não muito inspiradores.
Cansada de se alimentar do sofrimento, a jovem se imbui de uma enorme força de vontade e decide viver e não mais sobreviver. Para fugir do círculo vicioso da dor, Charlotte usa seu talento para o desenho e foca em algo produtivo, embarcando de cabeça no mundo das artes. Esse é o caminho que ela traça em busca da cura para as feridas deixadas por suas perdas e os cortes profundos e reais que imprimiu em seu corpo.








A história de Charlie Davis se dá início quando a garota é internada em uma clínica de reabilitação de jovens que se automutilam. Ela foi parar lá após ter sido encontrada no meio de uma poça de sangue na espelunca em que morava, que, por sinal, era uma casa onde jovens usuárias de drogas ganhavam dinheiro para fazer sexo. 

"E, estranhamente, quando você começa a se cortar ou se queimar ou a trepar porque está se sentindo tão bosta e humilhada, seu corpo começa a liberar aquela merda do sentimento bom chamado endorfina, e você não se sente tão doidona que o mundo é como algodão-doce no melhor e mais colorido parque de diversões do mundo, só que sangrento e cheio de infecção."

Charlie se perdeu em um mundo devasso de drogas e sofrimento ainda muito nova. A garota era muito próxima do pai e, após seu falecimento, passou por episódios sérios de brigas com a mãe. Era excluída na escola e se aproximou muito da Ellis, uma garota novata diferente de todas as outras. As duas se perderam juntas, até Ellis não aguentar a barra e cometer suicídio.

"FORA. CORTE TUDO PARA FORA.
Cortar meu pai. Cortar minha mãe. Cortar a falta que sinto de Ellis. Cortar o homem na passagem subterrânea, cortar o Frank Foda, os homens no andar de baixo, as pessoas na rua com pessoas demais dentro delas, cortar a fome e a tristeza e o cansaço e ser ninguém e ser feia e não ser amada, só cortar tudo, ficar menor e menor até eu não ser nada."

Seus dois amigos, também usuários, encontram a garota no meio do caos de sangue, e chamam por ajuda. Na clínica, Charlie demora um bom tempo para começar a conversar com alguém, seja um profissional ou alguma das meninas. Entre diversas garotas das mais variadas idades, a adolescente de dezessete anos se fecha no seu sofrimento. Ganha o apelido de Sue Silenciosa. Não se deixa abater por isso, afinal está quieta por opção.

"Eu me corto porque não consigo lidar com as coisas. É simples assim. O mundo se torna um oceano, o oceano cai em cima de mim, o som da água é ensurdecedor, a água afoga o meu coração, meu pânico fica do tamanho do mundo. Preciso de libertação, preciso me machucar mais do que o mundo pode me machucar. Só assim posso me reconfortar."

Aos poucos, acompanhamos a recuperação da personagem. Ela descobre que seu "kit de amor", como chamava os instrumentos que usava para se cortar, foi destruído, sobrando somente a caixinha de metal que usava para guardá-los. Quando a protagonista começa a se envolver com o tratamento, interagindo com a médica e com as garotas, respondendo às intervenções da clínica, ela é retirada de lá porque seu plano de saúde foi cortado. Nesse momento, ela se encontra sozinha e, mais uma vez, insegura. No entanto, ela vai tentar ser diferente, em outro lugar, outra cidade, outro estado.

"— Grandes mudanças — diz ela. — Você falou. Cortou o cabelo. Tirou as ataduras. Como está se sentindo?
(...)
— Feia — eu digo para ela, com a voz abafada e o rosto escondido pelo capuz. — Feia. Ainda me sinto feia."



[ - Minhas Impressões - ]

Perturbador e realista. O livro Garota em Pedaços nos apresenta uma temática muito pertinente e grande parte das vezes, ignorada pela população, ou pior, vista com maus olhos. A automutiliação é um tipo de distúrbio psiquiátrico que deve ser levada a sério, assim como qualquer outro problema psicológico que temos a tendência de colocar panos quentes.

"Certo? Não é assim que essas coisas de entrevista de emprego funcionam? Você tem que dizer de onde é, onde trabalhou, o que gosta de fazer, essas merdas todas.
Minhas respostas: de nenhum lugar, em nenhum lugar, fazer merda e me cortar."

A protagonista passa por situações que considera complicadas e não consegue reagir de outra forma, a não ser infligindo dor em seu organismo. Acompanhamos todo o sofrimento dela e sua luta por recuperação. Narrado em primeira pessoa, Charlie nos apresenta um mundo desagradável e com poucos momentos de felicidade. A luta por sobrevivência da adolescente é tocante.

"Estamos no último dia de maio. Nos últimos quarenta e cinco dias, eu tentei me matar, fui colocada em uma ala psiquiátrica, enviada de ônibus para o outro lado do país, arrumei um emprego lavando louça em um café pé-sujo e agora estou me esgueirando pela casa de um sujeito esquisito que aparentemente tem problema com álcool. Um esquisito bonito, mas ainda assim esquisito."

Durante a leitura, me lembrei do livro Cristiane F., que traz o tópico do abuso de drogas e do corpo na adolescência. Também me lembrei da série europeia My Mad Fat Diary, baseada em um livro homônimo, que apresenta uma adolescente obesa que pratica automutilação. Mas por que estou trazendo isso? Porque tanto Cristiane F., quanto MMFD e Garota em Pedaços trazem lições pesadas a respeito do sofrimento velado dos adolescentes e as formas que eles encontram para lidar com elas. Todos valem a pena ser lidos. 

"O que a gente fazia era ruim, era errado, mas também tinha o elemento de perigo que era atraente. Tipo, até onde dava para chegar sem se ferrar? Você reconheceria o momento em que uma coisa estava prestes a dar terrivelmente errado?"

Por se tratar de um tema delicado e difícil de aceitar, o livro é demorado para ser lido. O começo é cansativo, seja pela confusão da personagem ou pelo sofrimento dela na clínica, demora um pouco para que a leitura flua como algo agradável. Isso acontece na segunda parte do livro, quando ela volta para a vida normal. Seus pensamentos deixam de ser confusos e a leitura flui muito bem. A terceira parte, e o final, mantém o leitor envolvido, porém, senti falta de um final mais trabalhado, apesar de ser muito bonito. Eu, que geralmente devoro livros, levei dois meses para finalizar a leitura.

"Seguir em frente. Continuar a batalha. Estou ficando cansada de todo mundo pensar que é tão fácil viver. Não é. Nem um pouco."

Após terminar de ler, vi que a autora demorou mais de nove anos para escrevê-lo, pois, apesar de não ser um livro autobiográfico, Kathleen Glasgow também praticou automutilação. Acredito que, por esse motivo, a leitura tenha outro significado para o leitor. Qualquer livro que se aproxime da realidade e que traga tópicos tão relevantes como esses, devem ser levados a sério.

Sobre a apresentação do livro, a diagramação é simples, páginas amareladas, tamanho da fonte confortável para leitura. Encontrei alguns erros de revisão, mas nada que prejudique o andamento do livro. 

É uma leitura pesada que indico para todos os adolescentes, pais de adolescentes e pessoas que lidam com eles diariamente. Se você não passa por isso, você pode e deve ajudar.



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11 comentários:

  1. Oi Heloisa ♥
    Caramba, lendo sua resenha fiquei bem impactada com as coisas que você descreveu, imagina ler o livro! O tema é muito pouco abordado na sociedade, e quando, é extremamente irrelevante levando as pessoas a acreditarem que é algo banal. Eu tive uma colega que pratica automultilação e era horrível presenciar todo sofrimento. Ela arrancava os cabelos, se cortava com as unhas ou qualquer objeto cortante. Graças a deus que hoje ela está bem recuperada, mas infelizmente isso não acontece com boa parte das pessoas, justamente por acharem que é besteira. Creio que você ter achado confuso o começo é pelo fato da protagonista ser confusa com sigo mesmo. A estória despertou meu interesse, e depois que você disse que a autora levou tudo isso de tempo pra escrever por fazer a mesma coisa, me deu a impressão de ser um livro que preciso mesmo conferir.
    Quero pra ontem kkkk
    Bjão

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  2. Olá!
    Ainda não conhecia esse livro, mas a temática dele me interessa muito!
    Nunca li livros com essa temática, então vou anotar essa dica aqui e ler o quanto antes!
    Beijos

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  3. Esse livro parece ser tão sensível e forte. Gostei de ver o tema da automutilação na história, de ver como a personagem reage às coisas e entender melhor isso. A luta pela recuperação, porque faz... é uma coisa que acontece e é bom ver o porque disso, ter uma ideia da mente de quem faz essas coisas.
    Gostei por ter esse lado mais real, um tom de realidade na trama porque a autora sabe do que está falando.
    É um livro que gostaria de ler.

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  4. Olá Helô,
    O livro é, mesmo, muito pesado, mas, diferente de você, não acho que ele seja indicado para todos, pois ele é cheio de gatilhos, enfim.
    Foi o primeiro título que li nessa temática e ele me desolou, meu coração ficou destruído, mas sou grata por ter lido.
    Preciso ler Cristiane F.
    Beijinhos

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  5. Heloísa!
    Livros baseados em fatos reais, tornam a leitura mais crível e acredito que a autora, mesmo sem ter escrito a história dela mesma, colocou muito de sua carga emocional no enredo, afinal, não é fácil superar um transtorno psíquico como esse.
    Deve ser um livro bom para se ler, embora seja uma leitura pesada e que traga grandes ensinamentos.
    “A única sabedoria que uma pessoa pode esperar adquirir é a sabedoria da humildade.” (T. S. Eliot)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JUNHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  6. Achei um pouco pesada da estória mesmo já tendo idade suficiente para ser madura e compreender mais a respeito, mas o meu problema é que não estou tão acostumada a ler esses livros assim não sei se leria.
    Abraços!!!

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  7. Eu só tinha visto a capa desse livro, mas não sabia sobre o que se tratava. Fiquei com muita vontade de ler esse livro. A história dele parece ser muito boa, parece ser bem pesado mesmo, e realmente parece ser realista. É uma pena que o começo seja cansativo, e que o final não é tão trabalhado. Mas quero ler ele mesmo assim.

    Beijos!

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  8. Apesar de não se a primeira resenha que leio elogiando o livro e até entender que é necessário abordar um problema tão importante e atual entre nossos jovens, sei que não vou conseguir fazer essa leitura, já tentei outras vezes ler algo semelhante e sempre termino muito mal, então prefiro não faze-la.
    Beijos!

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  9. Oi Heloisa,
    Que livro mais intenso! Estava curiosa para saber uma opinião desse livro, é a primeira resenha que leio, e confesso que essa trama é bem mais forte do que imaginei. Li poucos livros que abordam esse tema de automutilação, e saber que a própria autora praticou torna a história ainda mais significativa.
    Que sofrida a vida da Charlie, lidar com a perda do pai, um relacionamento conturbado com a mãe e o suicídio de sua amiga, nossa, quanta barra essa garota teve que passar.
    É uma história bem perturbadora e cruelmente realista, fiquei aflita em saber o desfecho da vida dessa personagem, vou colocar o livro na meta de leitura.
    Beijos

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  10. Olá! Este deve se um livro pesado, mas muito bem escrito, já que trata de aspectos como automutilação, as doenças encontradas na mente e o uso de drogas, acho que é uma história sobre a sobrevivência, saber que foi baseado na vida da autora me anima ainda mais em realizar esta leitura assim que possível.

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  11. Olá !!
    Por mais que eu goste de todos os gêneros literários e ainda ter gostado da premissa desse livro eu não o leria, ele é muito pertubador e forte e eu me considero muito sensível psicologicamente rs. .
    Mas parece ser um bom livro ..
    Bjos

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