24 fevereiro 2017

Resenha - Bom dia, Verônica



Título: Bom dia, Verônica
Autor: Andrea Killmore
Editora: DarkSide
Skoob | Goodreads
Páginas: 256
Onde comprar: Amazon | Saraiva
Em "Bom dia, Verônica", acompanhamos a secretária da polícia Verônica Torres, que, na mesma semana, presencia de forma chocante o suicídio de uma jovem e recebe uma ligação anônima de uma mulher desesperada clamando por sua vida. Com sua habilidade e sua determinação, ela vê a oportunidade que sempre quis para mostrar sua competência investigativa e decide mergulhar sozinha nos dois casos. No entanto, essas investigações teoricamente simples se tornam verdadeiros redemoinhos e colocam Verônica diante do lado mais sombrio do homem, em que um mundo perverso e irreal precisa ser confrontado. 










Bom dia, Verônica. Essas são as palavras que Verônica Torres, secretaria do delegado da Divisão de Homicídios de São Paulo, escuta todas as manhãs. Mas ela sabe que as pessoas que lhe falam não a enxergam, para eles ela é invisível, mas quem repararia numa secretária? Casada com um marido devoto, Verônica quer mais da sua vida, sonha com o dia que será reconhecida como uma grande investigadora, mas essa chance jamais chegará pelas vias normais já que nunca lhe dariam uma oportunidade.

"- Bom dia, Verônica - disse a moça invisível que me oferece café todo dia. Eu nunca soube o nome dela e tenho certeza de que ela só sabia o meu por causa da placa na mesa."

As coisas em sua vida mudam quando uma Marta Campos entra na sala do delegado em prantos ficando lá por horas, ao sair a moça está arrasada e quando menos se espera, Verônica vê a moça se jogando pela janela do edifício. Tudo vira um turbilhão, ela fica totalmente transtornada em saber o que levou uma mulher jovem a fazer tal coisa, e assim, clandestinamente, Verônica começa investigar o que aconteceu já que ninguém mais parece achar que há uma razão para Marta ter se matado.

"- Acho que meu marido vai me matar. - A voz dela era firme e estranhamente calma.
- E por que ele faria isso?
- Ele gosta de matar mulher.
- Ele já matou outras?
- Já, muitas.
- Um assassino de mulheres?
- Desculpa, preciso desligar agora.
E desligou."

Verônica descobre coisas que jamais poderia ter imaginado, e ainda por cima, ela recebe uma ligação de uma mulher dizendo que seu marido é assassino de mulheres, e ela seria a próxima. Verônica vê nas duas mulheres a sua chance de mostrar que é competente, e assim, ela entra num mundo sem volta e sua vida perfeita começa a ruir. Uma mulher morta precisa de justiça, e outra viva precisa ser salva, e, no meio disso, Verônica precisa se manter firme até o final, mas será que ela conseguirá?





[- Minhas Impressões -]

Bom dia, Verônica foi um dos melhores livros que li no ano de 2016, a estória é tão crua e real que não conseguia parar de ler até que chegasse ao fim. Tudo me causou um tremendo choque, desde as atitudes tortas da protagonista, até mesmo com a justiça brasileira e a atual situação dos policiais. A obra é tão repleta de críticas sutis que chega a ser genial.

Narrado em primeira pessoa pela protagonista e alguns capítulos em terceira pessoa através do ponto de vista da Janete, a narrativa pode ser um pouco convencional já que tem essa alternância, mas foi a melhor forma de mostrar o que está acontecendo nos cenários. O fato de ter gostado tanto do livro foi justamente pela protagonista. Verônica é de longe a personagem mais real que já encontrei nos livros, ela erra, acerta, se contradiz, mente, faz tudo que está ao seu alcance para conseguir o que quer, e nesse caso, ela deseja justiça pelas duas mulheres que entraram na sua vida. Da sua maneira torta de ser, ela começa a investigar tanto o caso da Marta Campos, como também da Janete, e por não ser realmente uma investigadora, a protagonista usa de meios errados para conseguir informações como entrar em uma sala de evidências e roubar uma prova, ou invadir uma casa para coletar provas. Claro que isso é crime e errado, mas estamos tão imersos em sua mente que até mesmo aos nossos olhos parece certo já que nesse caso os "meios justificam o fim".

"Nem me preocupei em colocar luvas, minhas digitais seriam excluídas, já que eu trabalhava no prédio. Duvidava que alguém fosse reparar nisso. No brasil, ninguém checa nada. A mulher se suicidou. Logo, caso encerrado."

Além de tudo isso os casos são chocantes, não quero entrar em detalhes mas é terrivelmente forte, o livro inteiro trás um teor bem forte que deixa o leitor angustiado. O marido de Janete é um assassino frio no qual aborda meninas vindo do interior para São Paulo buscando uma vida melhor, mas o que encontram é um fim trágico. Todas as moças são estupradas, torturadas com objetos medievais e Janete é obrigada a ouvir tudo o que acontece. Tudo que estou falando não chega ser spoiler pois mostra já no começo do livro, o incrível de tudo isso é a forma com que Janete aguenta tudo, seu marido a tortura psicologicamente deixando-a totalmente submissa e acuada.

"É como se ele sugasse a energia vital dela através das palavras. [...]
Na cama, o monstro vai embora e ele volta a ser seu homem maravilhoso. Ela chega a esquecer tudo. Esquece a Caixa, os choques, os grito e o horror. Naqueles momentos, Janete ama Brandão."

Outra coisa que podemos encontrar na estória são críticas a justiça brasileira. O delegado escolheu não fazer nada a respeito do que acontece a Marta Campos pois logo se aposentará e não quer nenhuma complicação, chega a ser ridículo uma pessoa deixar a justiça de lado em prol de uma vida tranquila, mas é algo que de fato acontece. Também nunca tinha parado para pensar no medo que as famílias de policiais enfrentam, e isso fica bem nítido na obra, eles escondem quem são quando estão de folga por medo de serem mortos num assalto por exemplo, é terrível e ao mesmo tempo chocante.

"No Brasil, policial é tratado feito lixo. Faz vista grossa, se corrompe ou morre. Cansei de conhecer policial que escondia o distintivo para não ser assassinado no caminho de casa, PM que colocava a farda para secar atrás da geladeira para ninguém ver, Civil que escondia bem a carteirinha para não levar tiro se fosse pego de vítima em um assalto. Eu não queria ter vergonha de ser quem eu era."

Andrea Killmore é um pseudônimo de uma autora anônima que usa seu trabalho como inspiração para escrever suas obras, e isso é o que me deixou ainda mais atordoada, saber que algo assim acontece mesmo, e pior, tão perto de onde moro. A forma com que tudo foi descrito é tão forte e real que me tornei fã da autora e desejo poder ter oportunidade de conhecer mais experiências, mesmo que veladas.

"Era o primeiro dia do fim da minha vida. Claro que eu não sabia disso quando abri os olhos pela manhã e que estava atrasada. [...]"

A edição do livro dispensa elogios pois sabemos que se é DarkSide então é qualidade. O livro é de capa dura, folhas grossas e amareladas, traz internamente ilustrações que auxiliam na imaginação do leitor. Adorei o livro e ficou entre os top 10 melhores da vida. Vocês devem se perguntar "Então porque deu 4 estrelas", simples, achei o final um tanto quanto fantasioso. Adorei sim o que foi proposto, mas a obra é tão forte e real que o final pode ser meio destoante, mas nada disso tira o seu valor. Recomendo o livro para todos que desejam conhecer um mundo incerto e cheio de terrores, Bom dia, Verônica é um relato fantástico dos bastidores das coisas que vemos na televisão.


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